Cena do filme "Cores e Botas", de Juliana Vicente

O audiovisual no ambiente escolar para combater o preconceito

Uma pesquisa realizada em 2009 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) analisou as ações discriminatórias mais comuns no universo escolar. Foram avaliadas 500 escolas brasileiras e entrevistados alunos matriculados nas últimas séries do ensino fundamental, no ensino médio e no EJA (Educação de Jovens e Adultos), além de pais, membros do Conselho Escolar ou da Associação de Pais e Mestres, professores e outros profissionais de educação.

Foi detectado que todos os grupos investigados, em escalas e focos diferentes, apresentam atitudes, crenças e valores preconceituosos. “A área temática que apresentou a maior taxa de concordância com as atitudes discriminatórias foi a que exprime a discriminação em relação a gênero (38,2%), seguida pelas áreas referentes a discriminação geracional (37,9%), em relação a deficiência (32,4%), identidade de gênero (26,1%), socioeconômica (25,1%), étnico-racial (22,9%) e territorial (20,6%)”.

“É extremamente importante observar que, embora os respondentes tenham apresentado, na média, valores abaixo de 40% de concordância com atitudes preconceituosas, os valores obtidos para o índice percentual de distância social (que mede o nível de proximidade com que os atores escolares se mostram predispostos a estabelecer com os outros grupos considerados no estudo) oscilou entre 55% e 72%. Isso indica que eles, em geral, não aceitam a diversidade como parecem acreditar e possuem intenções comportamentais associadas ao nível de contato social que mantêm com os diferentes grupos”.

Por exemplo, “a distância em relação a pessoas homossexuais foi a que apresentou o maior valor de distância social, com 72%, seguido da distância em relação a pessoas portadoras de deficiência mental (70,9%), ciganos (70,4%), portadores de deficiência física (61,8%), índios (61,6%), moradores da periferia e/ou de favelas (61,4%), pessoas pobres (60,8%), moradores e/ou trabalhadores de áreas rurais (56,4%) e negros (55%)”.

Fica claro que as ações discriminatórias são motivadas pelo desconhecimento e distanciamento, sendo urgente o desenvolvimento de ações que permitam que os alunos (e outros membros do ambiente escolar) se aproximem de universos com os quais não estão familiarizados. Nesse sentido, filmes infantis e infanto-juvenis que combatem o preconceito e promovem a inclusão e o empoderamento podem ser utilizados em sala de aula (e também em casa) reforçando a necessidade de respeito e de empatia e incentivando a convivência harmoniosa e saudável.

Como sugestão para atividades que proporcionem reflexão sobre as diferenças e combate ao preconceito, listamos 10 filmes que tratam de alguns tipos de discriminação apontados no estudo:

  • No seu lugar, de Mariana Polo, é um curta-metragem ficcional que apresenta a história de Laura, uma menina de nove anos que tenta compreender a recente perda de visão de seu avô. Enquanto a família passa por uma fase de adaptação, ela experimenta novas situações que a aproximarão dele.
  • A festa da Joana, de Vera Vasques e Kelly Cristina Spinelli, aborda a questão dos estereótipos de gênero a partir da festa de aniversário de 9 anos de Joana. Enquanto a menina deseja uma festa temática do Batman, seu personagem preferido, sua mãe e as colegas da escola insistem que isso é coisa de menino e que ela deve se restringir ao universo de fadas e princesas que o mundo reservou para ela.
  • Cores e botas, de Juliana Vicente, apresenta a história de uma outra Joana. Seu sonho, igual ao de muitas meninas dos anos 80, é ser Paquita. Mas nunca se viu uma paquita negra no programa da Xuxa. Ela tem então que lidar com o preconceito das colegas e dos professores para alcançar seu sonho.
  • Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro, narra a trajetória de Leonardo, um adolescente cego que luta por independência, procura lidar com suas limitações e a superproteção da mãe. Para decepção de sua inseparável melhor amiga, Giovana, ele planeja libertar-se de seu cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Porém a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo, fazendo-o redescobrir sua maneira de ver o mundo.
  • Procura-se, de Jéssica Lopes, é sobre Miguel e seu avô Bartô. Inseparáveis, os dois moram na mesma casa e alimentam a cada dia uma intensa relação de amizade e parceria. Porém, quando os sintomas do Alzheimer começam a afetar a rotina da casa, Miguel terá a missão de ajudar seu avô.
  • Vista a minha pele, de Joel Zito Araújo, é uma paródia da realidade brasileira, em que se imagina um mundo de padrões invertidos, onde a elite é negra e os brancos são marginalizados. A partir da história de Maria, uma jovem branca que tenta vencer um concurso de beleza e sofre com o preconceito na escola, o filme pretende proporcionar reflexões sobre racismo e opressão. Como indica o título, incentiva que o expectador vista a pele do outro e perceba como é a sua realidade e suas lutas diárias.
  • Entre gerações, de Chico Faganello, é um documentário sobre novas formas de aprender. Ele mostra o encontro entre adolescentes estudantes da Escola Batista Pereira com moradores do Lar de idosos São Francisco. Juntos, eles assistem a um filme sobre a história do Brasil e conversaram sobre cinema e experiências pessoais.
  • Colegas, de Marcelo Galvão, é um longa-metragem sobre três amigos com Síndrome de Down que, inspirados pelo filme “Thelma and Louise”, resolvem deixar para trás a instituição onde vivem e embarcam em uma longa viagem de carro.
  • , de Leandro Tadashi, nos apresenta Bruno, um menino que é obrigado a lidar com as mudanças que ocorrem em sua vida quando sua “Bá” (de Batchan, avó em japonês) é trazida para morar em sua casa.
  • Alguém falou de racismo?, de Claudius Ceccon e Daniel Caetano, mistura situações ficcionais e entrevistas para debater o problema da discriminação racial nas escolas. A partir de uma redação proposta pela professora com o tema “O que você será daqui a dez anos?” e as zombarias ao sonho de Daniele, uma adolescente negra, de se tornar médica, a turma sai às ruas para entrevistar os transeuntes e compreender melhor os aspectos do preconceito racial no Brasil.

Pesquisa: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/relatoriofinal.pdf

Imagem no topo da matéria: Cena do filme “Cores e Botas”, de Juliana Vicente

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