Carta para Rosa | Como nossos pais | #CartasParaElas

Rosa,

Você caminha pelas relações, numa busca pelo que é seu. Por isso, não há um aprofundamento especificamente em nenhuma delas. Passamos. O que importa é você.

Estão lá os homens que te orbitam. Pai, pai biológico, irmão, marido e amante. Cada um, parece trazer mais vazios do que preenchimentos.

“Não brinquem com os fantasmas – fantoches – do meu pai”, você fala para as suas filhas. Os homens de sua vida parecem mesmo etéreos, mas você tenta, não é, Rosa? Você tenta alcançar verdades. Você está cansada do superficial, da farsa. Diferente do seu pai, que desvia da verdade deliberadamente, porque assim é que sabe viver, você, agora, cutuca as histórias, as suas histórias, sem medo do que pode descobrir. Você cansou da cantada óbvia e de quem quer te definir, mesmo que essa definição venha em um embrulho bonito, como “feminista erótica de all star azul”.

As relações com as mulheres são intensas e contraditórias – mãe, filhas e irmã. Do susto das revelações da primeira, uma convivência que ganha parceria. Que bom ver o seu entendimento da importância do sapato vermelho, dos dois cigarros por dia e o agradecimento pelo show da Rita Lee. Deve ter sido duro encarar a comparação da sua relação com sua mãe e a sua com sua filha mais velha. É preciso romper esse ciclo de desconhecimento e afastamento entre mãe e filha, Rosa. E você compreende isso. Com Caru, ouça o seu pedido, e deixe a caretice de lado.

A compreensão do que é transgressão para você, Rosa, é o que faz você achar o seu caminho. Se para sua mãe, foi o encontro vivido em um congresso em Cuba, para você parece ser algo ainda mais íntimo.

Na sua trajetória, você oscila entre a exterioridade e a interioridade e, nesse caminho, vai rompendo barreiras imaginárias nos dois espaços – de deixar o peito livre no espaço público e encarar o seu marido e revelar os seus sentimentos por outra pessoa. Sem falar, ainda, do espaço da casa materna, com suas plantas e livros. Ali também está uma parte de sua história. E é ali que podemos sentir uma transformação: do almoço familiar inicial tão cheio de rixas e alfinetadas, para um momento que você compartilha com suas filhas, na experiência de uma rotina cotidiana – que é regar as plantas – mas tão cheia de hereditariedade e significação. Na casa, “não apenas as nossas lembranças, mas também os nossos esquecimentos estão aí ‘alojados'”, já bem falou Bachelard.

Então, Rosa, às vezes, a maior “transgressão” pode ser banal, cotidiana, porém, libertadora. É preciso, para isso, enfrentarmos e atendermos os nossos medos. Transgredir, assim, poder ser ir de bicicleta com as filhas para escola ou, simplesmente, falar a verdade. E é, assim, Rosa, que você pode criar a sua Nora, seu desfecho e suas reticências depois do fim. Até porque quem escreve, agora, é você.


 

Como nossos pais, de Laís Bodansky

Carta para Rosa (personagem de Maria Ribeiro)

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