HQs: quem conta essas histórias? | Notícia

Por Paulo Vitor de Lima*

Representação e representatividade da mulher nas histórias em quadrinhos

Desde que me entendo por gente, sou leitor de quadrinhos e fã de super-heróis. Há algum tempo, comecei a comprar uma coleção de livros da Marvel – que, por sinal, é muito boa – e que traz uma linguagem diferente dos quadrinhos para esse mundo dos nossos amigos superpoderosos.

Foi daí que veio a ideia de escrever este texto, com a proposta de refletir sobre um assunto muito discutido nos dias atuais e, como não podia deixar de ser, já bem presente no mundo dos HQs. Pois bem, voltando à coleção que me referi há pouco, comprei um desses livros e gostei muito da maneira que a história foi contada, e mais, percebi uma diferença na maneira como os personagens eram descritos e na própria construção da narrativa.

Fui então pesquisar sobre o autor e qual foi a minha surpresa ao descobrir que era uma mulher. Mas por que surpresa? É aí que começa a discussão que quero trazer aqui. Fui pesquisar mais sobre o assunto, porque, até onde lembrava, só tinha lido histórias desenhadas e escritas por homens.

O mundo dos quadrinhos sempre foi um lugar cheio de homens, escrito por homens e para homens, e não havia (ou conhecia) referências interessantes, complexas e não sexualizadas de mulheres. No início das histórias em quadrinhos, as mulheres apareciam para ser uma auxiliar, uma coadjuvante, de um grupo de heróis formado por outros quatro ou cinco heróis homens ou para ser o alívio cômico da história. Mesmo quando surgiram as primeiras heroínas e suas histórias, ainda assim, essas narrativas também não eram escritas para mulheres e sim contavam uma “versão dos homens” do que seria uma super-heroína.

Um exemplo de como esse universo era masculino e fechado para as mulheres é o da Mulher Maravilha, um ícone de representação da mulher no universo dos super-heróis/heroínas –  e de seu empoderamento – dentro das HQs. Surgida em 1941, só em 1986 a Wonder Woman teve, pela primeira vez, suas aventuras desenhadas por outra mulher: Trina Robins, quando a DC a contratou para desenhar uma minissérie de quatro revistas.

Para se ter uma ideia, existem vários relatos de mulheres que desenhavam ou escreviam para as grandes editoras de HQs no passado e para suas histórias serem aceitas usavam pseudônimos de homens.

Isso vem mudando dentro das editoras e da indústria dos quadrinhos, as histórias contadas por mulheres trazem mais humanidade, na medida que integram uma visão diferente daquela que sempre enxergamos nos heróis, fossem eles homens ou mulheres. Por exemplo, hoje temos uma mulher vestida de aranha e tendo que se preocupar com a gravidez enquanto combate os vilões ou uma menina gênio que constrói sua própria armadura do homem de ferro.

Essas mulheres estão escrevendo para elas e para nós também! É só ler o livro do Dr. Estranho, A sina dos sonhos, escrito pela Devin Grayson, ou o livro dos X-Men, Espelho Negro, da Marjorie Liu. Recomendo muito!

Outra surpresa agradável na pesquisa, foi saber que no Brasil temos várias mulheres escrevendo, desenhando e publicando muita coisa de qualidade, e não só pra Marvel e DC. Sim, temos mulheres brasileiras desenhando hoje o Lanterna Verde, a Miss Marvel e o seu amigo da vizinhança, o Homem-Aranha. Temos trabalhos sensacionais e não muito conhecidos, que podem ser acessados na internet.

Tem um trabalho muito legal que foi feito por um site que se chama ladyscomics, no qual você encontra um banco de dados com quadrinistas brasileiras o BANQ!. Por lá, você pode acessar o trabalho delas. Hoje você encontra sites de quadrinhos muito bons para ler conteúdos de qualidade e se divertir bastante, uma dica bem legal é o https://hqsbrasileiras.com.br/.

Foi uma ótima surpresa descobrir esse mundo novo de histórias dos meus personagens favoritos e muitos outros, contados pelo ponto de vista, pela vivência de vocês, mulheres surpreendentes e incríveis. E que o número de escritoras, e também leitoras, de quadrinhos continue crescendo e nos trazendo boas e novas histórias, porque, nós homens, precisamos dessa complementaridade, conhecendo, entendendo e, principalmente, respeitando o mundo diverso que vivemos, seja ele aqui na Terra ou numa galáxia muito distante…

* Paulo Vitor de Lima, 40 anos, casado, pai de dois filhos e fã de quadrinhos. Já fiz muita coisa nessa vida, mas me falta ainda a sensação de saltar entre arranha céus usando apenas meus lançadores de teias!

 

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