The Post: a guerra secreta | #ElasNoOscar | Testes de representatividade

O Arte Aberta preparou um Especial do Oscar 2018: #ElasNoOscar, com a análise de cada um dos filmes indicados à categoria de Melhor Filme. A análise será norteada pelos seguintes aspectos:

  1. Sinopse geral do filme de acordo com a percepção do Arte Aberta evitando spoilers;
  2. A ótica das mulheres presentes no filme analisado, como são tratadas, suas funções na trama e pontos de atenção;
  3. Representatividade feminina na ficha técnica utilizando como parâmetro as funções principais descritas pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) na análise de representatividade e as funções técnicas de indicação ao Oscar de 2018: Direção, Roteiro, Produção, Produção Executiva, Direção de Fotografia, Direção de Arte, Figurino, Trilha Sonora, Edição de som, Mixagem de Som, Edição, Efeitos Especiais e Maquiagem;
  4. Representatividade feminina no elenco principal utilizando como base os créditos iniciais/finais que destacam as atrizes e atores do filme com o papel principal; e
  5. Análise dos Testes de Representatividade.

Devido a percepção de falta de representação feminina nas telas de cinema foi criado o Teste Bechdel-Wallace originado da tirinha de quadrinhos The rule, escrita por Alison Bechdel, em 1985, a partir de uma ideia de sua amiga Liz Wallace, que faz parte da série Dykes to watch out for (DTWOF) da autora. Já falamos deste teste aqui!

A partir desse conceito foi criado um site (https://bechdeltest.com/) em que as pessoas, de forma colaborativa, classificam o filme a partir das perguntas norteadoras do teste, criando uma imensa base de dados sobre a representação das mulheres no cinema. O teste faz as seguintes perguntas: Existem ao menos duas mulheres no filme, e elas têm nomes? Elas conversam entre si? Elas conversam entre si sobre algo que não seja sobre um homem?

Devido ao caráter simplório do teste – apesar de inúmeros filmes não serem aprovados no mesmo, surgiram outros testes que visam analisar mais profundamente o papel da mulher nas películas: Teste Mako Mori; Teste Tauriel, e Teste Barnett, identificados pelas pesquisadoras Carolina Magaldi e Carla Machado (2016) no estudo Os testes que tratam da representatividade de gênero no cinema e na literatura: uma proposta didática para pensar o feminino nas narrativas.

O Teste Mako Mori visa medir a participação das mulheres no enredo. Para que o filme passe, é preciso ter, pelo menos, uma personagem feminina; ela deve possuir arco dramático; e, por último, esse arco não deve ser apoiado no arco de um homem.

O Teste Tauriel tem como objetivo entender a participação da mulher na trama, se ela está a serviço do homem como par romântico, ou se ela é competente em algo. Para que um filme passe, ele deve responder positivamente os questionamentos: Existe personagem mulher? As personagens mulheres existiriam se fossem homens? Ou, em outras palavras, elas existem só para serem pares românticos de personagens homens, ou são realmente competentes e boas no que fazem?

O Teste Barnett, o mais diferente desses, analisa também a ótica masculina, na tentativa de desmistificar o estereótipo do gênero masculino ligado à violência. As perguntas são: O filme possui pelo menos duas mulheres e dois homens e o assunto do diálogo entre eles vai além de falar sobre o sexo oposto? Se há alguma violência, ela é retratada com humor ou falta de seriedade; ou como normal ou aceitável; ou ainda como se alguém merecesse a violência? Nessa segunda regra, para que o filme passe é necessário que a resposta seja negativa, o que demonstra que o filme não utiliza a violência de forma gratuita, sem a contextualização na narrativa.

O nosso principal objetivo é entender como cada filme indicado a “categoria principal” do Oscar se coloca em relação à mulher, a partir desses testes de representação. Além disso, depois de analisar cada um dos filmes faremos uma análise de como todos os filmes se saíram. Não sabemos como será o resultado, mas será ótimo dividir essa experiência com vocês.

Os nove indicados do Oscar na categoria de Melhor Filme deste ano são: The Post: a guerra secreta, de Steven Spielberg; Trama fantasma, de Paul Thomas Anderson; O destino de uma nação, de Joe Wright; Me chame pelo seu nome, de Luca Guadagnino; Dunkirk, Christopher Nolan; Corra!, de Jordan Peele; Lady Bird: é hora de voar, de Greta Gerwig; A forma da água, de Guillermo del Toro; Três anúncios para um crime, de Martin McDonagh.

O primeiro analisado foi o The Post: a guerra secreta, indicado a duas categorias: Melhor Filme e Melhor Atriz (Meryl Streep). Dirigido por Steven Spielberg e roteirizado por Liz Hannah (roteirista de TV e curtas, sendo este seu primeiro longa) e Josh Singer. O elenco principal, além da Meryl Streep, conta com o Tom Hanks.

Meryl Streep e elenco de "The Post"

The Post: a guerra secreta

Sinopse

A história se passa no período da guerra do Vietnã, durante o governo Nixon, do qual vazam documentos sobre a omissão de informações sobre a guerra. A partir disso, a imprensa inicia uma batalha contra o governo expondo esses dados. No mesmo momento, o Washington Post, presidido pela personagem Kay Graham, interpretada por Meryl Streep, passa pelo processo de abertura de capital, e precisa decidir se entra nesse embate. É um filme histórico que marca o papel da imprensa na sociedade.

Sob a ótica das mulheres

Kay Graham (Meryl Streep) desde o início já demonstra deslocada na posição como dona do jornal Washington Post. O jornal era o negócio de seu pai, repassado para o seu marido, que se suicidou, e, assim, coube a Kay Graham gerir a empresa. Apesar de constantemente deslocada, seja pelo conselho – totalmente masculino, ou pelo fato de ela ainda não ter se apropriado totalmente do jornal, Kay dedica-se a manter o legado e a romper a “barreira de gênero” no ambiente. Essa barreira é bastante marcada no filme, seja nas reuniões do conselho, na forma de tratamento de seus membros com Kay, na desigualdade de gênero nos ambientes de trabalho e na separação de atividades entre os personagens masculinos e femininos. Essa marcação é proposital para que o espectador sinta o desconforto de estar na posição da Kay, e acredite no potencial dela.

Existem outras mulheres no filme, mas que ocupam a posição de apoio. Um exemplo é a personagem Tony Bradlee (Sarah Paulson), esposa do editor do Washington Post, Ben Bradlee (Tom Hanks). Ela está ajudando e apoiando a equipe do jornal (majoritariamente masculina) na organização dos documentos sigilosos e apesar de representar um papel secundário, apresenta um discurso importante de sororidade com a personagem de Kay. Também aparecem a filha de Kay, Lally Graham (Alison Brie), em uma situação marcante da trama, desmistificando o preconceito do que uma mulher é capaz de fazer, e duas jornalistas em momentos diferentes de apoio, Meg Greenfield (Carrie Coon) e Judith Martin (Jessie Mueller).

Além de retratar um marco histórico para a liberdade de imprensa, o filme toca no contraste da disparidade de gênero.

Ficha Técnica

A ficha técnica considerada possui 46,15% de representatividade feminina. É importante ressaltar que as funções que são unicamente exercidas por mulheres são de Figurino e Maquiagem.

Elenco Principal

Nos créditos finais do filme, são apresentados 13 nomes, sendo que somente quatro são de atrizes, sendo assim 30,77% de representatividade feminina. De fato, os personagens mais atuantes da trama são homens.

Bechdel-Wallace

Aprovado.

O filme passa no teste Bechdel, mas não existem muitas personagens femininas na trama com diálogo.

Mako-Mori

Reprovado.

O arco dramático da personagem principal está completamente apoiado nos homens que a cercam.

Tauriel

Aprovado.

Tanto a personagem principal, Kay, quanto as jornalistas Judith e Meg apresentam competência nos papéis que desempenham, apesar de Kay só ser ouvida e reconhecida depois de tomar decisões difíceis e se impor no universo predominantemente masculino.

Barnett

Aprovado.

O filme tem poucas personagens femininas com diálogos entre elas, e menos ainda sobre assunto que não sejam os homens da trama, enquanto em relação aos homens há muito diálogo entre eles que não são sobre mulheres. Além disso, apesar de apresentar, no início do filme, uma cena de guerra, essa foi interpretada como contexto histórico da trama e não como estereótipo de violência atrelado ao gênero masculino.


A série Elas no Oscar é um desmembramento do estudo realizada pela pesquisadora Natália Brandino, colaboradora do Arte Aberta. A pesquisa inicial foi recentemente publicada, em primeira mão, na revista Filme Cultura nº 63, edição Mulheres, Câmeras e Telas.

 

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