Carta para Moana | #CartasParaElas

Moana,

Tenho sentido uns medos incontroláveis, irracionais, como os medos são. Na semana passada, pegando um voo de volta para casa, fechei os meus olhos e, para me acalmar, visualizei você, uma menina, no topo da montanha, fazendo o mar se partir em dois, encarando Te Ka com coragem e bondade, conseguindo encontrar no monstro de pedras e lavas a deusa da vida e da natureza, Te Fiti.

Coragem e bondade, juntamente com o respeito ao passado e a esperança no futuro, dão a você um novo conceito do que é ser guerreira. Uma guerreira conectada com a natureza, com o seu local, sua história e seus ancestrais. É nesta dualidade de coragem e bondade que quero pautar a minha vida!

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No transe do meu medo, porém, fui para o fim de sua história. E que história. Uma que merece ser contada e recontada. Vista e revista. Como tenho feito desde que seu filme foi lançado, juntamente com meus filhos.

Você já chega com uma imensa responsabilidade – ser mais uma princesa da Disney. Uma categoria, uma marca, que, para falar a verdade, me faz revirar os olhos. Não que eu negue que as últimas princesas já tenham construído uma história interessante. E você já tem aí um padrão mínimo a alcançar. Mas tudo o que é limitado em uma categoria, enquadrado em um conceito cheio de pré-requisitos explícitos e implícitos, leva a estereótipos, nos quais você mesma cai em alguns.

Você, porém, já chega tentando quebrar este conceito, afirmando-se como a filha do chefe da aldeia. Embora o semideus Maui lembre que você tem todas as características esperadas para cumprir este estereótipo – você usa um vestido e tem um animalzinho como parceiro, só pode ser uma princesa.

com a avó

A sua conexão com sua avó te salva do que querem te impor. Te leva a pensar em algo que nem você consegue nomear. Que exemplo é esta mulher, não é? Uma mulher que traz uma liberdade que só se alcança quando se sabe e se aceita quem se é. Ela mostra o poder que é ser livre para ser loucamente você mesma. Adoro quando ela te diz que “ela é a mãe, que ela não tem que falar nada”, referindo-se ao seu pai e às suas peripécias para ir além dos recifes. Sinto falta, Moana, não vou mentir, de te ver interagir mais com sua mãe, que aparece ali sempre ao lado do seu pai, mas sem expressar tanto as opiniões e ideias dela. Mas, confesso, que entendo essa parceria com as avós. Pais e mães estão ali na linha direta para educar e proteger. As avós trazem o amor desvinculado da “obrigação” de educar.

Gif avó

Não é na primeira tentativa que você consegue partir para a sua aventura, como nas narrativas de heróis – e heroínas – mais conhecidas. Afinal, não é apenas talento que queremos identificar e admirar nos nossos exemplos, mas resiliência e persistência. E você não decepciona, Moana. É no momento de maior dor, a despedida da sua avó, que você consegue as forças para partir na sua aventura – em busca da solução para a ilha de Motonui, para o reequilíbrio da natureza ao seu redor, para se encontrar com o oceano (que sempre te chamou e te escolheu), para, enfim,  encontrar Maui, recuperar o coração de Te Fiti e fazê-lo entregar o mesmo de volta para a deusa da natureza.

No barco, para sua surpresa, o desajeitado Heihei te acompanha. Mas o oceano é o seu verdadeiro parceiro, te dando uma forcinha nos momentos de desespero. Ele às vezes amedronta, revolta-se nas tempestades, mas também te leva a Maui e Te fiti. E mais: traz a história de seu povo de volta. Um povo que tinha esquecido seus ancestrais, suas origens nômades e navegantes. Voltamos ao medo. A aldeia assimilou esse medo de “ir além” e o medo de olhar para o seu passado.

Na sua aventura, há uma compreensão inicial que o que você precisa fazer é “apenas” encontrar Maui e convencê-lo a devolver o coração de Te Fiti. Mas já imaginávamos que você poderia mais! E assim você faz, virando a mestre navegante você mesma. Sim, há uma ajudinha do tanto convencido Maui, mas é você quem não desiste, é você que atravessa o monstro em chamas e é você, Moana, que consegue ver que a natureza sem seu coração virou um monstro. Um monstro revoltado, porque lhe roubaram o que tinha de mais puro. Voltamos, assim, ao início, que já era o fim. Você, com a sua bondade e coragem, ouviu o chamado de Te Ka e descobriu quem era na verdade.

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Na sua trajetória, Moana, não há grandes inovações de narrativa. Mas ao trazer elementos já tão bem trabalhados nos caminhos percorridos por heróis, agora protagonizados por uma “princesa” da Disney – e ainda com um recado de respeito a quem somos de verdade – é tão válido. É por isso que carrego comigo o seu simbolismo.

Afinal, todos temos os nossos próprios recifes. Aqueles limites que a sociedade nos impõem e nos desafia a não atravessar. Aqueles caminhos que nos dão medo com a mesma intensidade que nos chama.

Mas nós vamos em frente, Moana, como você.

Com te fiti

—-

Moana: um mar de aventuras

Direção: Ron Clements e John Musker

Roteiro: Jared Bush

Sinopse: Uma jovem decide velejar através do Oceano Pacífico, com a ajuda de um semideus, em uma viagem que pode mudar a vida de todos.

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