Carta para Glorinha | Separações | #CartasParaElas

Glorinha,

Depois de tantos pedidos de folga de Cabral, é você quem se encanta pela liberdade, pelo sonho de poder fazer as coisas de que realmente gosta e, enfim, conseguir entender-se profissionalmente sem trabalhar apenas com o marido. É você, Glorinha, que vive mais uma paixão intensa ao ponto de ter seu coração partido ao ter que aprender a se despedir de um amor para voltar para outro. Ah, Glorinha, você evoca Jesus e seus 40 dias no deserto para dar início ao seu caminhar independente. Uma folga épica que dura, na verdade, um ano. Um ano de seu triângulo amoroso, dividida entre Cabral e Diogo.

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Já a satisfação de Cabral com a liberdade dura apenas uma semana. É, assim, que o amor de vocês inicia as etapas – narradas por Cabral – da aceitação dos pacientes terminais em relação à morte: negação,  negociação, revolta, aceitação e agonia ou estado de graça. Cabral fica entre a saudade e o desespero. Imediatamente após uma rápida vivência de sexo casual, Cabral inicia a sua negociação para tentar voltar com você. A ferramenta principal: a escrita de poesias. E quantos poemas você recebe, Glorinha? Na sua portaria, ao vivo, para membros de sua família. Poemas cheios de amor, mas também de dor e raiva.

Aquele homem que via lógica e razão na separação torna-se louco e sem mesura. Infelizmente, Glorinha, após o estágio de negociação, Cabral passa ao de revolta.  A sua poética, agora, é movida pela desilusão, pelo ódio.

O seu amor com Cabral me acompanhou por tanto tempo, Glorinha. Aquelas cenas internas, aquele amor com história de mais de 10 anos, os poemas, a separação e o retorno à casa. Queria te escrever uma carta e, assim, fui rever o filme que tanto me marcou, um filme que destoa da cinematografia brasileira e caminha para o cinema de intimidade, num tom menor, no qual a grande questão é o pequeno: são as relações – de amores e de amigos – e o cotidiano daquela “gente do teatro” carioca.

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Em 2018, confesso, porém, que o “amor” de Cabral – em sua face de raiva e revolta com a separação, me surpreendeu. Negativamente. Como me chocou a saída fácil para te chamar de puta – quando era ele que tão insistentemente pedia “folga”. Mas quando é você que quer essa liberdade, Glorinha, o machismo aflora. Machismo de um homem culto e do teatro. Veja só! As insistências dele para o seu retorno também vão além do respeito, do aceitável.  

É apenas depois da viagem – com a sua ausência física do Rio de Janeiro – que Cabral parece colocar a cabeça no lugar, seguindo os seus insistentes pedidos, Glorinha. Pedidos para que ele voltasse a ser o homem por quem você se apaixonou. Pois você sabia, Glorinha, que Cabral ainda era uma possibilidade, a dúvida entre os dois amores persistia. Mesmo com a relação com Diogo e mesmo com as reações de Cabral.

Sabe o que eu mais gosto disso tudo, Glorinha?

Que é você quem decide o momento e o tempo da folga, da separação e do retorno. A escolha entre os dois amores é sua. É sua a decisão pelo amor que tinha uma história, uma história que você define como ainda válida de continuar. É você quem define o seu estado de graça, na sua casa, “onde e como o repouso encontra situação privilegiada”1, com Cabral descansando em seus braços.

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Separações (2003), de Domingos Oliveira.

Cabral (Domingos Oliveira) ama Glorinha (Priscilla Rozenbaum), mas não quer perder sua liberdade; quer, pelo menos mais uma vez, apaixonar-se. Cabral tem uma máxima: “é  melhor se arrepender de ter feito do que de não ter feito”, ensinamento que passa a sua filha, Júlia (Maria Ribeiro). Glorinha ama Cabral, mas está cansada dos  seus pedidos de “folga”. Ela também quer liberdade, não necessariamente a amorosa, mas, pelo menos, a independência profissional, já que está sempre trabalhando com o marido. Ricardo (Ricardo Kosovski), ex-namorado e, hoje, melhor amigo de Glorinha, está montando um teatro de revista do século XX, um projeto ambicioso, afinal, para Rick “teatro é coisa séria”. O novo diretor, que, segundo Cabral, ainda tem muito que aprender, mas tem um bom coração, está com duas namoradas:  a esotérica Maribel e a decidida Roberta. Glorinha resolve fazer a assistência de direção da peça de Ricardo, mesmo sem o aval de Cabral. Diogo (Fábio Junqueira), um arquiteto que se transforma em homem do teatro, junta-se ao projeto. Glorinha, agora, é quem pede folga a Cabral, folga de 40 dias, “como Jesus no deserto”. Nos bastidores da peça de teatro, Glorinha e Diogo apaixonam-se, estopim para o enredo da trama, puxado pelo triângulo  amoroso Cabral-Glorinha-Diogo.

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1 BACHELARD, Gaston. “A poética do espaço”. In: Os pensadores . São Paulo: Abril Cultural, 1978.

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