Carta para Joy | Wanderlust – Navegar é preciso

Joy,

Wanderlust  é uma palavra alemã, dessas que só têm significado na língua de origem, como a nossa “saudade”. Aquela primeira é uma junção de duas outras: wander – maravilhar-se, vagabundear, aventurar-se – e lust – luxúria, desejo. Juntas, porém, nasce um significado novo: um desejo intenso de viajar pelo mundo, um desejo maior que qualquer outro, uma sede por conhecer novos lugares.

E quando a viagem é para dentro, Joy? Quão grande e arriscada pode ser essa empreitada? Afinal, quando se permite partir e abraçar um desejo profundo de se conhecer, te digo, nada será como antes. (E quem disse que não era exatamente isso que você queria?).

Mas, antes de decidir comprar essa passagem e embarcar nessa viagem, há uma ruptura. Por que é assim, não é? Seguimos a rotina da vida, trabalhando enquanto esperamos o final de semana, as próximas férias; mas nos esquecemos dos minutos, dos segundos, do agora, do que está acontecendo dentro de nós. Então, algo acontece que nos faz parar – um livro, um filme, uma série, uma conversa, uma viagem ou, no seu caso, um acidente.

Sabe de quem eu lembrei? De Clarice Lispector, com seus momentos de epifania – aquele ponto de virada no meio do cotidiano, causado, muitas vezes, por questões tão simples. Como o sapato de madeira da menina no conto Preciosidade, do livro Laços de família. De repente, aquele som já não era o mesmo, e nem ela. E o mundo se descortina. E se descortinou para você, Joy, quando você foi atropelada com sua bicicleta.  

Ali, no chão, o que passou por sua cabeça? Que arrependimentos? O que você queria ter vivido?

Você logo se recuperou, fisicamente. Seguiu com suas competências profissionais, maternas e matrimoniais. Mas naquele momento de pausa você encarou as frestas, as rachaduras de sua vida. Viu o que estava errado num relacionamento que, ao mesmo tempo, te trazia tantas coisas boas. E você não é mulher de fingir que não viu ou não entendeu (depois que viu e entendeu). Muito pelo contrário, você resolve expor a ferida. Investigar e tentar novos caminhos. Sair da lógica da única resposta, da única narrativa e testar alternativas para antigos problemas. Assim, você e Alan decidem abrir o relacionamento, sair com outras pessoas, mas continuar juntos.

A decisão é comunicada aos filhos, é aberto também o diálogo entre a família. Você entende que uma decisão dessas não afetaria apenas você e seu marido. As suas filhas recebem bem a questão. O filho mais novo nem tanto. O que achei engraçado. Duas mulheres ali tão bem resolvidas, após o choque inicial, e um menino agarrado à sua zona de conforto, ao entendimento pré-estabelecido que tinha dos pais.

Vou te confessar, achava que a série era sobre isso, apenas. Mas há ali tantos temas caros à vida.

Há também uma pegada que se mostra interessante sobre os estereótipos de gênero. Afinal, é você, Joy, que propõe a abertura da relação e é você que “entende” que essa dinâmica é sexual e deve ser comunicada aos outros envolvidos na equação. Claro, há uma relação ali também de diversão, de companheirismo. Mas, neste caminhar, Alan envolve-se com uma colega de trabalho e, de forma bem óbvia, apaixona-se por ela. Enquanto você, digamos, separa melhor os sentimentos. Compreende inclusive que, entrando em contato com o ex namorado, o terreno ficaria muito mais arriscado.

Não é apenas o seu relacionamento ou a sua vida que estão em jogo nessa narrativa, mas as das suas filhas e filho e de seus pacientes. Há na sua profissão de psicanalista, que atende casais (em crise), um quê de metalinguagem na narrativa audiovisual. Além disso, a partir desses pacientes, recebemos ainda mais questionamentos sobre as relações humanos. Não há mesmo um modelo para se seguir e ser feliz, apenas tentativas. E tem você também, Joy, com a sua terapeuta, em um dos episódios mais lindos da série. Debatendo sobre você ser você mesma, sem atuar em papéis que esperam de você, sobre a culpa e o pesar que você carrega por questões que ocorreram no seu trabalho. Você, que parece sempre tão resolvida, mesmo em momentos caóticos, mostra-se vulnerável.

Todos os personagens que te cercam também apresentam essa ligação com o que esperam de suas relações – e da vida. Estão todas e todos errando em nome de… viver. “Errando” para acertar. Vamos descobrindo também histórias de mortes e do impacto disso na vida de quem fica. O encarar a vida após algo trágico e ter a opção de se fechar ou não para o amor.

Com isso tudo, que é apenas um pouco dos dramas dos personagens apresentados na série, já é possível perceber que não é apenas um seriado sobre sexo e relacionamento. Casamento, sim, ok, está lá de várias formas. Mas também: vida/morte, amor/sexo, saúde/doença. E mais que tudo, um desejo de vida. Uma busca sua, Joy, – e de todas e todos ao seu redor – de se encontrar nesse mundão louco no qual vivemos. E assim seguimos nós também, em viagens externas e internas, buscando ajustar nossas rotas, relacionamentos, desejos e alegrias.

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