Anime Pilotos de Dragão: revolução feminina ou status quo? | Crítica Hisone to Maso-tan

Sempre que uma nova temporada de anime se inicia, procuro opções de séries que tenham não só protagonistas femininas, como também um elenco predominantemente feminino. Na temporada de primavera (aqui no hemisfério sul, outono) do ano passado não foi diferente. Dentre as opções, chamou-me a atenção uma em especial: Hisone to Maso-tan, chamada pela Netflix brasileira de Pilotos de Dragão.

Vejam bem: a protagonista é feminina (✓), o elenco parecia inteiramente composto por mulheres (✓), o estilo de arte é original e interessante (✓), o estúdio é consistente na qualidade de suas produções (✓), a história fala de dragões (✓), e, a cereja do bolo, as personagens femininas são pilotos de dragão (✓✓✓). Parece a fórmula de um anime bem interessante, não?

Bom, assistam o trailer e tirem as suas conclusões:

Parece interessante, mas, já na parte final do trailer, dá para notar algo meio desconfortável, não? Uma voz em off masculina berra:

“Chega de moleza! Se quiserem competir com a gente, têm que treinar muito mais que um homem!”

Já adianto que esse é um tema recorrente na série, mas falo mais sobre isso mais adiante. Vamos começar pelo início!

Hisone Amakasu é uma jovem mulher que se alista na força aérea de autodefesa do Japão. Por conta de uma coincidência (ou não), ela acaba entrando em contato com um dragão mantido em sigilo na sua base militar. Para a sua surpresa, ela descobre que possui a rara habilidade de pilotar a criatura (que se disfarça de caça para evitar que a população em geral descubra a sua existência). A partir daí, acompanhamos a personagem se familiarizando com essa atividade, conhecendo novas pilotos de dragão e realizando missões que podem definir o futuro do Japão.

Bom, vocês podem notar que escrevi acima “novas pilotos de dragão”. Isso porque todas elas são mulheres. Não porque sejam as mais qualificadas para o trabalho, mas porque os dragões só aceitam ser pilotados por mulheres. As razões nunca são de fato exploradas, mas as implicações sim. Para início de conversa, as únicas mulheres que não trabalham em funções administrativas na base militar estão na unidade das pilotos de dragão. Todas as outras funções são ocupadas por homens. Isso é um retrato da situação atual do Japão. Na verdade, até a época de produção do anime, não havia nenhuma mulher piloto de caça na história do país, aliás, a função era permitida apenas para homens até quatro anos atrás. Felizmente, a situação está mudando e quase concomitantemente à exibição do anime, a primeiro-tenente Misa Matsushima, de 26 anos, se tornou a primeira mulher piloto de aviões de combate do Japão. Já no Brasil, a título de curiosidade, a primeira mulher a pilotar um caça da FAB foi a capitã aviadora Carla Borges em 2011.

No anime, as personagens femininas sofrem discriminação constante pelo simples fato de serem mulheres. Sempre que cometem erros, há um homem para informá-las que é porque são mulheres ou que não se pode confiar a mulheres esse tipo de função ou qualquer outra coisa do tipo. Além disso, pelo menos em duas circunstâncias, Hisone reconhece em voz alta que está sofrendo algum tipo de assédio sexual, mas isso não parece constranger ou impedir que o ato prossiga.

De fato, a cultura japonesa parece delimitar muito bem os papéis das mulheres e dos homens, e todos devem segui-los à risca. É muito mais comum lá a mulher pedir demissão do seu trabalho porque está se casando (observe que antes mesmo de ter um filho) para se dedicar a família. O anime retrata uma situação similar quando apresenta a personagem de uma ex-piloto de dragão que fez essa escolha: desistiu da carreira para ser esposa. A personagem está plenamente conformada com a sua decisão. Não há questionamentos. É aí que a série se torna desconfortável. As mulheres simplesmente aceitam que os homens falem barbaridades para elas, aceitam o assédio que sofrem, aceitam ter que escolher entre a carreira profissional e formar uma família.

Entre as personagens, a que mais se incomoda com as expectativas de gênero é El Hoshino. Antes de mais nada, El sempre sonhou em ser piloto, não de dragão, mas de caça. Daí sai o seu codinome “Penguin”, que vem do primeiro pinguim a pular na água: ela quer ser a primeira mulher a pilotar essa aeronave. No entanto, o anime de uma forma meio enviesada e nunca explícita, parece afirmar que isso não é possível e que ela deve contentar-se em ser uma piloto de dragão. Dá uma certa impressão de que é isso mesmo: há trabalhos de homens e de mulheres, aceitem! Vale também observar que El é a personagem feminina estereotipada que tenta se afirmar distanciando-se das “coisas de mulher”, como relacionamentos com homens e com as amigas.

A série ainda vai mais longe (e agora entramos de fato nos spoilers, fiquem avisados), ao estabelecer que quando uma mulher se apaixona, ela é rejeitada pelo dragão e não consegue mais pilotá-lo. Esse é um símbolo muito potente, não dá para ignorar. Primeiro, há a simbologia de que a mulher é uma enquanto “donzela” e outra quando “cai em tentação”. Essa é uma forma muito masculina de nos enxergar, não é mesmo? Sempre sendo consideradas em relação a um homem (mesmo que somente ao conceito abstrato de homem) e não como um ser independente e autônomo. Outra consequência disso é uma suposta indivisibilidade do coração da mulher: dedica-se ao homem ou ao dragão. Seguindo essa dualidade excludente, ou a mulher dedica-se à carreira ou à família! Como somos limitadas (sinta a ironia)! Por fim, temos os dragões, que querem que as mulheres sejam inteiramente deles. Os dragões agem como “homens” (machistas, vale dizer) e exigem dedicação exclusiva.

Voltamos a nossa protagonista: Hisone Amakasu. Ela é uma moça bem excêntrica, meio egocêntrica e não parece ter muito bom senso (será aquariana?). Suas soluções esdrúxulas para problemas simples causam geralmente mais danos do que benefícios. No entanto, o fato é que ela não aceita para si respostas prontas e ideias preconcebidas. As suas decisões são tomadas a partir de sua própria verdade interior. Por isso, não consegue aceitar sacrificar questões importantes para ela sem antes procurar uma alternativa. É ela a catalisadora de algumas revoluções no universo de Hisone to Maso-tan. Hisone quer ter direito ao seu primeiro amor, e quer também pilotar um dragão, quer cumprir sua missão, mas quer realizá-la sem sacrificar nenhuma vida humana inocente. Ela quer ser aceita e reconhecida por todos, mas não quer com isso deixar de ser sincera com ela mesma.

No final das contas, Hisone to Maso-tan criou em mim muitas emoções conflitantes. Frequentemente me senti muito desconfortável enquanto assistia à série e cheguei a considerar desistir. A impressão é de que o anime aparenta não saber quais valores está defendendo. No final parece predominar uma concessão entre a revolução e o status quo:

“Aceitamos algumas mudanças aqui e ali, mas de forma geral, permaneceremos da mesma forma de sempre, ok?”.

Parece muito com a forma que conquistamos os nossos direitos na vida real: muita luta, muito sacrifício, e, ainda assim, os avanços são lentos e muito pequenos. E da mesma forma que fico insatisfeita com a nossa realidade, fiquei também com o anime. De qualquer forma, é, para o bem e para o mal, um anime provocador.

Hisone to Maso-tan é uma série animada de 12 episódios e está disponível para ser assistida na Netflix.

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