7 beijos “de novela” para quebrar preconceitos| Dia do beijo

Já acompanhou algum casal por diversos capítulos ou temporadas, achando que a qualquer momento sairia um beijo? Já vibrou quando finalmente aconteceu ou se decepcionou e ficou só na vontade? Já desejou por um beijo pelo que ele significaria, muito além do romance entre os personagens?

A primeira cena de beijo no cinema ocorreu em 1896, no filme The Kiss, de apenas 26 segundos, dirigido por Thomas Edison. De acordo com o livro The Story of Film, de Mark Cousin, o beijo entre os atores John C. Rice e May Irwin foi um rápido selinho, mas deu muito o que falar.

Cento e vinte e três anos depois, muita coisa mudou. Infelizmente, uma parcela dos espectadores parece continuar com a mentalidade daquela época. Ainda hoje, alguns beijos continuam causando furor e críticas, sendo vetados e servindo de motivo para o boicote das obras.

Confesso: gritei alto com o beijo entre os personagens Félix e Niko (Carneirinho), em Amor à vida. Um beijo que até o último momento não sabíamos se seria transmitido. Bati palmas (rs) quando rolou o beijo entre Luccino e Capitão Otávio, na novela de época Orgulho e Paixão. Um beijo cozinhado durante meses, sempre na iminência, sempre evitado, até o final da obra. Um beijo rápido após dezenas de “quase beijos”. Mas, ainda assim, o primeiro entre dois homens em uma novela das 18h. Muito mais do que beijos, passos. Mesmo que atrasados e pequenos.

Segundo Silvia del Valle Gomide, em sua dissertação de mestrado Representações das identidades lésbicas em Senhora do Destino:

o grau de expectativa entre as telespectadoras pela exposição de um beijo gay na principal novela da Rede Globo é reflexo da importância emocional e política da visibilidade da vida gay na TV. O beijo romântico é parte central das narrativas de amor nos meios audiovisuais em nossa cultura, e sua ausência na narrativa de um relacionamento configura e reassegura discriminação e preconceito aos romances entre pessoas do mesmo sexo”.

Por esse motivo aproveitamos o dia do beijo para clamar pela liberdade de poder beijar quem quiser, com consentimento, entrega e prazer. Sem tabus, sem preconceito, sem censura.

Pensando nisso, listamos alguns beijos de novelas e seriados que quebram tabus e ajudam a dar esses pequenos passos rumo a um audiovisual diverso e plural. E de brinde para não perder o trocadilho: um beijo daqueles de novela também.

É beijo que você quer? Então toma!

1 – Em 2015, Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg geraram muita repercussão no primeiro capítulo da novela Babilônia da Rede Globo. O motivo? Um beijo.

Beijo leve, em um momento natural de carinho em meio à rotina familiar, entre duas mulheres casadas há anos, mas que gerou um grande estardalhaço por ser acusado justamente de tentar acabar com a famosa e frágil “família tradicional brasileira”.

Com muitas críticas e boicotes, a emissora se acovardou e passou a evitar cenas de beijos entre o casal. Ignorando, como sempre faz, qualquer contato físico entre casais homossexuais, transformando o relacionamento em algo juvenil, sem toques, sem sexo, amparado somente no dito e no imaginado.

Nesse caso em específico, o conservadorismo da audiência e a covardia da emissora impediram diversos temas de serem trabalhados. Além de ser um casal lésbico, as personagens Estela e Teresa apresentavam a possibilidade de confrontar o tabu do sexo na terceira idade, apresentando informação, quebrando preconceito e oferecendo rostos tão conhecidos e já amados para algo que é historicamente escondido e negado. Que maneira melhor de fazer isso do que com duas das maiores atrizes brasileiras? Um casalzão da porra que deveria ter sua própria novela.

2 – Ainda na primeira temporada de Grace e Frankie, os personagens Grace e Guy estão se conhecendo e entrando em novos territórios no relacionamento.

Após uma experiência não muito satisfatória (o que passou despercebido a Guy), Grace decide dar um passo atrás e fazer as coisas mais devagar, respeitando seu tempo e seu corpo. A personagem percebe a importância de buscar o próprio prazer e orienta o parceiro sobre como ajudá-la nesse processo, ensinando o que gosta, onde ele deve tocá-la e guiando-o em uma dança e em um beijo ao som de vinil, sob a luz do luar.

3 – Atypical é uma série original da Netflix e apresenta como protagonista um adolescente com autismo. Sam está no ensino médio e manifesta o desejo de namorar. Em meio às orientações da terapeuta, os conselhos do melhor amigo, as zombarias da irmã e as preocupações da mãe, Sam está sozinho nesse processo.

Com receio de ser tocado, incomodado com barulhos, com dificuldade para perceber indiretas e sutilezas e muitas vezes sem filtro social ao comentar algo a respeito de outra pessoa, a jornada de Sam por uma namorada segue sem sucesso. Contando, inclusive, com algumas interações desagradáveis e tristes.

A situação muda quando ele percebe que Paige está interessada nele e permite que ela se aproxime. Apesar de estranhar algumas características da garota e precisar se acostumar com essa nova dinâmica, ele percebe que gosta da colega.

Protagoniza, então, uma releitura de tantas cenas de declaração de amor que já vimos nos filmes adolescentes, tudo com seu jeito. Sam invade uma sala de aula à procura de Paige e interrompe sua aula de francês. Na frente de todos, ele lhe diz que sente sua falta e lhe dá um presente. Ganha então, finalmente, seu primeiro beijo, em uma declaração pública, com espectadores e a Torre Eiffel ao fundo. Em uma “típica” cena de amor (com o perdão da brincadeira).

4 – The Fosters é uma série de cinco temporadas produzida, dentre outros profissionais, por Jennifer Lopez. Ficou conhecida pelo amplo leque de temas trabalhados, com foco no combate ao preconceito.

A série fez história por exibir o beijo gay mais jovem da televisão americana até então. Os personagens Connor e Jude, de 13 anos, se conhecem na escola e se apaixonam. Enquanto Jude conta com mães compreensivas e empáticas, que trazem informações e se esforçam para ouví-lo, desejando estar ao seu lado no processo de descoberta e aceitação, Connor lida com um pai mente fechada, que não compreende e teme a proximidade entre o filho e Jude.

Com fã clube e hashtag, o casal se tornou um dos mais shippados do seriado e seu beijo foi muito aguardado.

5 e 6 – The Fosters conta ainda com um dos melhores casais dos últimos anos no audiovisual. Stef e Lena têm cinco filhos e são muito apaixonadas. Em uma relação de carinho, respeito e companheirismo, elas lidam com os problemas dos filhos adolescentes, dos seus pais, de suas profissões e, claro, com suas próprias ansiedades, medos e frustrações.

Stef e Lena se casam em uma cerimônia delicada, com parentes e amigos, cercadas de muito amor. Anos depois, protagonizam uma cerimônia de reafirmação dos votos e o novo casamento, improvisado, acontece embaixo de chuva, no quintal de casa, repleto de tantas lembranças e símbolos.

Para não se molharem, os convidados correm para dentro de casa, enquanto o casal não poderia se importar menos. Debaixo de chuva, se beijam e garantem um casamento tão lindo quanto o primeiro.

7 – Desde o início de One day at a time, Elena tenta compreender sua sexualidade. Após se abrir com a família, ela decide que está pronta para namorar. Não conta, no entanto, com experiência no assunto e fica nervosa ao conhecer Syd. Sem saber como agir e com medo de parecer boba, ela envia sinais contrários, que confundem a companheira.

Em meio a uma perseguição policial em que todos têm que ficar dentro do apartamento por uma questão de segurança, as duas são obrigadas a ficar juntas por um longo período e aproveitam para conversar de forma honesta sobre seus sentimentos. Embaixo de helicópteros e holofotes, as duas têm seu primeiro beijo.

Curiosidades:

Sabe qual foi o primeiro beijo entre mulheres na História do Cinema? Ele ocorreu no filme Mädchen in Uniform (Meninas de Uniforme), de 1931. O filme alemão foi censurado e teve cópias destruídas pelos nazistas, mas teve uma segunda versão exibida em 1958.

Na televisão brasileira, o primeiro beijo ocorreu na novela Sua vida me pertence, da TV Tupi, entre os atores Vida Alves e Walter Forster. A atriz contou, em suas memórias, que o pudor na época era tanto, que o próprio fotógrafo da emissora se recusou a fotografar a cena, não havendo registro do momento histórico.

Não bastasse ter protagonizado o primeiro beijo heterossexual das telinhas, Vida Alves filmou também o primeiro beijo lésbico da televisão nacional, em companhia de Geórgia Gomide. A cena foi parte do teleteatro Calúnia, exibido em 1963.

Eu e Geórgia Gomide fazíamos as diretoras de um colégio de meninas adolescentes. Uma das meninas, maldosamente, espalhou que eu e ela éramos amantes. Com isso, os pais de alunos ficaram revoltados e houve uma debandada do colégio. As diretoras ficaram revoltadas, primeiro porque elas não eram amantes, e, depois, porque estavam perdendo o trabalho. O colégio acabou fechando as portas. No dia do fechamento, uma olhou para a outra, de uma forma muito terna, e se beijaram. Elas, que até então não tinham qualquer envolvimento, perceberam que realmente se amavam. E assim foi o primeiro beijo gay da televisão brasileira. Foi transmitido ao vivo” – Vida Alves em entrevista à revista Época. 

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