O filme é dirigido por Ryan Coogler, conhecido por seus trabalhos aclamados, como Pantera Negra (2018), Pantera Negra: Wakanda para Sempre (2022) e Creed: Nascido para Lutar (2015). O longa concorre em 16 categorias, batendo o recorde histórico do Oscar, que era de 14 indicações (compartilhado por Eva, 1950; Titanic, 1997; e La La Land, 2016). As indicações de Pecadores incluem: Filme; Diretor; Ator (Michael B. Jordan); Ator Coadjuvante (Delroy Lindo); Atriz Coadjuvante (Wunmi Mosaku); Roteiro Original; Elenco (nova categoria); Direção de Arte; Fotografia; Figurino; Edição; Maquiagem e Penteados; Som; Efeitos Visuais; Trilha Sonora Original; e Canção Original (“I lied to you“). O roteiro é assinado pelo próprio Coogler.
A seguir, analisamos Pecadores com o nosso Teste Arte Aberta. Para saber mais sobre o teste, confira o texto introdutório.

Sinopse
De acordo com a percepção do Arte Aberta evitando spoilers
A trama acompanha os gêmeos Fumaça e Fuligem (Michael B. Jordan em papel duplo), que deixam o Sul dos Estados Unidos durante a Grande Migração em busca de uma vida melhor no Norte. Tentando escapar de um passado sombrio, os irmãos abrem um clube noturno que rapidamente se torna popular. No entanto, um encontro misterioso e sobrenatural com uma força demoníaca ameaça destruir tudo o que construíram, colocando suas almas e sua fraternidade à prova em uma atmosfera de terror gótico ambientada nos anos 1930.

Ótica de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
Pecadores é, antes de tudo, um filme sobre raça. Ryan Coogler utiliza o gênero do terror fantástico não apenas como veículo narrativo, mas como metáfora sofisticada para explorar a experiência negra nos Estados Unidos dos anos 1930, período marcado pelas leis Jim Crow, pela Grande Migração e pela violência racial sistemática.
A escolha do vampiro como antagonista central da obra revela camadas profundas de significado. A figura do vampiro branco que persegue Sammie (Miles Caton), um personagem que mantém conexão viva com sua ancestralidade através da música (e da arte), dialoga diretamente com o conceito de “eating the other” (comer o outro) desenvolvido por bell hooks. A teórica feminista negra analisa como a cultura dominante branca consome, fetichiza e se apropria da diferença racial, especialmente da negritude, buscando vitalidade e autenticidade que sente faltar em si mesma. No filme, essa dinâmica de consumo cultural se materializa literalmente: o vampiro branco não apenas deseja o sangue de Sammie, mas cobiça sua conexão com raízes ancestrais, sua relação com tradições culturais africanas e afro-diaspóricas que os brancos destruíram, folclorizaram ou tentaram apagar historicamente.

Essa metáfora vampírica ilumina questões contemporâneas sobre apropriação cultural, sobre o fascínio predatório da branquitude pela negritude, e sobre as tentativas históricas de extrair, consumir e esvaziar a cultura negra de seu poder político e espiritual. O vampiro representa não apenas a violência física da supremacia branca, mas também sua dimensão parasitária — a necessidade de sugar a vitalidade cultural negra para se sustentar.
Mas Coogler vai além da metáfora e confronta o espectador com uma verdade ainda mais brutal: ao final do filme, depois de sobreviver ao ataque vampírico durante a noite, Fumaça (Michael B. Jordan) enfrenta, ao amanhecer, membros da Ku Klux Klan. O dia que nasce traz a solução para o problema sobrenatural. A ameaça dos vampiros é temporária, à noite; a supremacia branca, no entanto, é permanente, onipresente, sistêmica.
Ao mesmo tempo, o filme apresenta limitações importantes em termos de representação de gênero e ausências completas de representação LGBTQIA+ e de pessoas com deficiência (PcD). Embora personagens femininas negras como Annie (Wunmi Mosaku) ocupem lugares de poder espiritual e sabedoria ancestral, a narrativa permanece centrada em experiências masculinas, e as mulheres não possuem arcos dramáticos próprios que as levem a transformações internas ao longo da história.

Representatividade de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
Direção e Roteiro*
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
A direção do filme Pecadores é assinada por Ryan Coogler, que também assina o roteiro. Coogler é um homem negro e não há declarações públicas que o identifiquem como pessoa LGBTQIA+ ou pessoa com deficiência (PcD).
Dessa forma, a ficha técnica principal (direção e roteiro) é composta por 100% de pessoas não brancas, 0% de mulheres, 0% de PcD e 0% de LGBTQIA+.

Elenco principal*
Créditos iniciais/finais
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
Nos créditos finais do filme, aparecem com destaque individual os nomes de Michael B. Jordan, Hailee Steinfeld, Miles Caton, Jack O’Connell, Wunmi Mosaku, Jayme Lawson, Omar Miller, Buddy Guy, Delroy Lindo, Peter Dreimanis, Lola Kirke, Li Jun Li, Saul Williams e Yao.
Considerando como elenco principal os nomes apresentados com destaque individual, o grupo é composto por 36% de mulheres (5 pessoas), 64% de homens (9 pessoas), 64% de pessoas não brancas (7 pessoas negras e 2 pessoas asiáticas), 36% de pessoas brancas (5 pessoas), 0% de pessoas LGBTQIA+ e 0% de PcD, com base em declarações públicas disponíveis.

Representação
Mulheres
Presença (Bechdel-Wallace)
As mulheres têm nome?
Se falam por mais de 60 segundos?
Sobre outro assunto que não seja homens?
Reprovado.
O filme passa na primeira e (parcialmente) na terceira pergunta. Com poucas exceções, as mulheres apresentadas ao longo do filme, por menores que sejam seus papeis, têm nomes. Contabilizamos, no entanto, apenas dois diálogos entre mulheres, sobre algum assunto que não seja sobre homens, mas que somam um total de apenas 19 segundos. Um diálogo entre Annie (Wunmi Mosaku) e uma criança que está fazendo compras em sua loja (15 segundos) e uma cena em que Mary (Hailee Steinfeld) pede uma dose de Whisky para Grace (Li Jun Li).

Arco Dramático (Mako-Mori)
Tem mulher?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de gênero?
Reprovado.
Embora algumas das personagens mulheres do filme possuam passados relativamente bem escritos e memoráveis (notadamente Annie e Mary, e em menor aspecto Grace e Pearline), as personagens mulheres não passam por mudanças internas significativas ao longo da narrativa.

Competência (Tauriel)
Houve mulher(es) com atividade profissional definida?
Ela é competente na atividade?
Grau da Competência Caso a mulher seja competente, quão competentes elas são em sua atividade profissional (1 a 5 , sendo 1 – pouco competente e 5 – muito competente)
Houve reconhecimento dessa competência?
Aprovado.
Nota: 5
A personagem Annie, vivida por Wunmi Mosaku, exerce algumas atividades profissionais, como vendedora/proprietária de uma pequena loja e cozinheira (ela é contratada para ajudar na cozinha do estabelecimento recém fundado pelos irmãos gêmeos Fumaça e Fuligem).
Sobre Annie, cabe uma reflexão: a competência profissional da personagem não é um ponto de destaque, uma vez que a trajetória das mulheres negras nos Estados Unidos (semelhante ao que ocorreu no Brasil e em outros locais que foram tocados pela escravização, exploração e submissão a condições de trabalhos extenuantes) carrega uma carga de trabalho (além do cuidado e do trabalho invisível). Destacamos, no entanto, o papel e a competência espiritual da personagem. Annie está em contato com suas raízes ancestrais, e através dessa conexão com a espiritualidade ela consegue ocupar uma posição de destaque dentro do grupo que faz parte. Isso ocorre principalmente na segunda metade do filme, na qual Annie exerce um papel de líder por ser a única que sabia lidar com a situação sobrenatural que foi vivenciada na narrativa.

Além de Annie, Grace (Li Jun Li) também exerce uma profissão, como vendedora e responsável pela confecção da placa do estabelecimento dos gêmeos. Grace toma as rédeas na negociação do valor do seu serviço e é valorizada por isso.

Qualidade da representação – mulheres
Como é a representação das personagens mulheres (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 3
O filme apresenta personagens femininas com bastante destaque na narrativa, embora não sejam as personagens principais da história. Além disso, pode-se dizer que são retratadas com pouquíssimos estereótipos de gênero.
Annie, uma personagem potente que apresenta, talvez, o maior peso dramático da obra de Ryan Coogler, não deixa de ser retratada através de alguns estereótipos de gênero. Por exemplo, a associação a funções sociais relacionadas ao cuidado e à natureza, em oposição a Fumaça (Michael B. Jordan), que vai “viver o mundo”, enquanto Annie se preocupa e trabalha espiritualmente (através de raízes, rezas e patuás) para seu retorno.
Cabe destacar que essas oposições (cultura x natureza / moderno x ancestral) dão o mote para o filme, mas acreditamos que devem ser lidas mais através de uma representação racial do que de gênero.

Raça
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem não branco?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de raça?
Aprovado.
Os três personagens que possuem arcos dramáticos no filme — Fumaça, Fuligem e Sammie — são homens negros cujas trajetórias fogem completamente de estereótipos raciais reducionistas. Pelo contrário, suas representações se aprofundam em questões pertinentes e complexas da experiência racial, como a valorização de ancestralidades africanas, o reconhecimento de aspectos culturais relevantes das populações negras diaspóricas, e a tensão entre assimilação e resistência cultural.

Qualidade da representação – raça
Como é a representação dos personagens não brancos (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 3
A representação racial constitui o aspecto mais forte e sofisticado da narrativa de Pecadores. Ryan Coogler constrói um universo cinematográfico profundamente enraizado na experiência negra norte-americana dos anos 1930, não apenas como pano de fundo histórico, mas como elemento estruturante da narrativa.
A espiritualidade negra, particularmente representada pela personagem Annie (Wunmi Mosaku), é tratada com seriedade e respeito, não como exotismo ou superstição, mas como um sistema de conhecimento ancestral legítimo e eficaz. A conexão com raízes africanas não é folclorizada, mas apresentada como fonte de poder, sabedoria e proteção comunitária.
A música blues, elemento central da narrativa, é abordada não apenas como trilha sonora, mas como expressão cultural fundamental da experiência negra, como forma de resistência, memória coletiva e comunicação transcendental. O personagem Sammie (Miles Caton) é figurado como um Griô, que incorpora essa dimensão, mostrando o blues como linguagem que conecta mundos e temporalidades.
Os personagens negros são complexos, contraditórios, dotados de agência e profundidade psicológica.

LGBTQIA+
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem LGBTQIA+?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de LGBTQIA+?
Reprovado.
Não há representação LGBTQIA+ no filme.
Qualidade da representação – LGBTQIA+
Como é a representação das personagens LGBTQIA+ (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 0
Não há representação LGBTQIA+ no filme.
PcD
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem PcD? Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de PcD?
Reprovado.
Não há representação de pessoas com deficiência no filme.
Qualidade da representação – PcD
Como é a representação das personagens PcD (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 0
Não há representação de pessoas com deficiência no filme.
Resumo do Teste Arte Aberta

Representatividade


Representação



Estrelas Arte Aberta: 1,5

