A atriz estadunidense Geena Davis, responsável por um instituto de gênero na mídia (Geena Davis Institute on Gender in Media), aposta na frase: “If she can see it, she can be it” (“Se ela pode se ver, ela pode ser”), que traz a questão da importância da representação nos meios de comunicação para o empoderamento e protagonismo das meninas e mulheres de todo o mundo.
Exemplo recente desse tipo de representação foi o lançamento do filme Mulher Maravilha, da diretora Patty Jenkins, que fez sucesso de público e crítica.

É importante destacar que há uma relação de representação nas telas e de quem assume funções por trás das câmeras. Assim, é preciso pensar tanto nas funções de chefia assumidas pelas mulheres no audiovisual brasileiro, como nas representações dessas mulheres nas diversas janelas de exibição. Afinal, estamos em 2019, e, mais do que nunca, não é possível aceitar as imensas disparidades de gênero na nossa mídia.
O estudo da Agência Nacional do Cinema (Ancine) – Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016, que tem como base os 142 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição no ano de 2016, mostra que são dos homens brancos a direção de 75,4% dos longas. As mulheres brancas assinam a direção de 19,7% dos filmes, enquanto apenas 2,1% foram dirigidos por homens negros.
Nenhum filme em 2016 foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra ou por uma mulher indígena.
A participação nos elencos das obras também mostra a sub-representação da população negra. Apesar de o Brasil ser formado por 50,7% de negros, o percentual de negros no elenco dos 97 filmes brasileiros de ficção lançados em 2016 foi de apenas 13,4%. Há também sub-representação da população indígena, que, mesmo tendo mais de 305 etnias no Brasil, não há protagonismo na produção dentro do circuito comercial.
Segundo o Boletim Gemaa – PERFIL DO CINEMA BRASILEIRO 1995 – 2016, que apresenta o perfil de raça e gênero dos filmes brasileiros de maior público lançados no período indicado, a presença da mulher negra na direção e no roteiro destes filmes é zero. No elenco principal, as mulheres negras aparecem apenas em 4% dos filmes analisados no período.
De 2009 a 2016, a presença das mulheres na direção oscilou, tendo como pico 2012, com 24%, e percentual mais baixo o ano de 2014, com apenas 10% de filmes lançados comercialmente em salas de cinema com direção apenas de mulheres. Confira os dados da análise histórica:
| Ano | Filmes dirigidos apenas por mulheres (%) | Filmes dirigidos apenas por homens (%) | Filmes dirigidos por homens e mulheres (%) |
| 2009 | 17 | 82 | 1 |
| 2010 | 16 | 77 | 7 |
| 2011 | 15 | 78 | 7 |
| 2012 | 24 | 72 | 4 |
| 2013 | 16 | 80 | 4 |
| 2014 | 10 | 87 | 4 |
| 2015 | 15 | 77 | 8 |
Até hoje, Adélia Sampaio é uma referência, por ter sido a primeira mulher negra a ter dirigido um longa-metragem de ficção no Brasil lançado comercialmente em salas de cinema – Amor Maldito, lançado em 1984.

Em 2017, o documentário O caso do homem errado, dirigido por Camila de Moraes e produzido por Mariani Ferreira, quebra uma lacuna de mais de 30 anos ao colocar um filme dirigido exclusivamente por uma mulher negra no circuito comercial.

Nos Estados Unidos, uma das únicas indústrias cinematográficas autossustentáveis do mundo, nas 250 maiores bilheterias, em 2016, a presença de mulheres em funções técnicas no cinema correspondeu:
- 5% na direção de fotografia;
- 7% na direção dos filmes (dois pontos percentuais a menos do que no ano de 2015);
- 13% no roteiro;
- 17% na produção executiva; e
- 24% na produção.
Não é apenas o fazer cinematográfico que apresenta percentuais discrepantes de gênero. Nos 100 filmes de maiores bilheterias nos EUA, em 2016, as mulheres são responsáveis por apenas 32% de todos os personagens com falas, enquanto os homens têm 68% de personagens com falas. Destacamos, ainda, que as personagens mulheres que aparecem nesses filmes são, em sua grande maioria, brancas (76%).

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