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Entre Risos e Lágrimas + Clandestinas | Crítica

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Ficção e realidade?

O aborto na comédia romântica e no documentário

É interessante questionar até que ponto aquele comentário da “ficção imitando a realidade” é válido. Principalmente quando se tem o debate filosófico do que é a realidade e também de que, nem sempre, o documentário pode ser equivalente a um recorte de realidade.

Mas bem, o propósito do texto não é questionar a relação entre ficção e realidade e sim envolver esses dois planos, que já estão interligados profundamente, no debate da legalização do aborto.

O filme Entre Risos e Lágrimas (Obvious Child), da diretora Gillian Robespierre, disponível na Netflix, conta a história de Donna Stern que engravida após fazer sexo sem proteção com um cara que conheceu no bar onde apresenta sua Stand Up Comedy. Sabemos por pesquisa realizada pela Anis – Instituto de Bioética, que o perfil da maioria das mulheres que abortam no Brasil não é parecido com o da personagem. Mas Donna, por morar no estado de Nova York nos Estados Unidos, pôde escolher realizar o aborto sem nenhum tipo de interferência.

O filme é cheio de leveza e tem uma ótima trilha sonora. Destaque para um discurso à mesa de sua amiga Nellie sobre a relação entre o patriarcado e o aborto (boa, Neille!). O discurso foi para que Donna percebesse que a decisão cabia a ela e não ao cara com quem se relacionou.

obvious child: aborto
Cena do filme “Obvious Child”

O cara, que se chama Ryan, a procura depois da noite que dormiram juntos, antes mesmo que Donna pudesse realizar o aborto. Eles claramente começam a se envolver emocionalmente e mostra o respeito de Ryan pela escolha de Donna. Aí que o filme toca em algo fundamental: respeito e companheirismo perante à escolha pelo aborto. E isso não vem só de Ryan, mas também de Nancy, mãe de Donna, que conta que também fez um aborto quando adolescente.

Percebe-se, portanto, que mesmo sendo um procedimento legalizado no local onde ocorre a narrativa, Donna enfrenta problemas sociais que advém de julgamentos morais quanto ao aborto, inclusive tornando-se consciente ao longo do filme de que a decisão cabe a ela. E a mais ninguém. O acompanhamento psicológico e o acolhimento são fundamentais para que a mulher tome sua decisão, isto é, que tenham pessoas a favor da mulher, sem interferências de ordem moral ou religiosa.

Já no documentário Clandestinas, de Fádhia Salomão, a frase “eu virei clandestina” abre os relatos reais de mulheres interpretados por atrizes e convidadas.

A experiência com o aborto perpassa as falas, são de mulheres que interromperam a gravidez por diversos motivos. Diferente de Donna, os relatos são sofridos e trazem a clandestinidade, o medo e o julgamento presentes no processo de procurar medicamentos ou clínica ilegais para fazer o aborto.

Sabemos que no Brasil a legalização do aborto não é de interesse da grande maioria dos políticos no Congresso Nacional, principalmente por questões religiosas e sexistas. É a maternidade compulsória e o famoso “deu, agora aguenta” que perpassa o fundamento contra a legalização. Isso abre, inclusive, o debate sobre métodos contraceptivos, que, como as mulheres afirmam no documentário, não garantem 100% de eficácia e parece que a responsabilidade pela proteção recai sempre às mulheres.

No documentário há a menção a um dos casos legalizados para a interrupção da gravidez: em caso de estupro. E mesmo nesse caso, como é possível observar nos relatos, não há apoio pela equipe médica e policial. Para conseguir o aborto por meio do SUS nos casos de violência sexual, as mulheres passam por uma sabatina e são questionadas sobre o porquê de quererem o aborto. Num dos relatos, é possível enxergar a falta de humanidade e de respeito com quem sofreu violência sexual e precisa realizar um aborto. Nega-se até o direito garantido na legislação. A mulher sofre outra violência no atendimento policial e, em caso de gravidez, no atendimento médico. A culpa pela violência é ampliada pela culpa que é colocada em cima da mulher que decidiu interromper a gravidez após o estupro.

O pavor nos relatos sobre as clínicas de aborto clandestinas que as mulheres pobres podem pagar parece ficção. Porém, bem distante da ficção da personagem Donna Stern. Para a personagem, o aborto é legalizado e há clínicas disponíveis que seguem o compromisso pelo procedimento seguro, já no Brasil, as mulheres pobres sangram em macas e com médicos digno de filmes de terror, como um relato do documentário que compara a vestimenta do médico com a de um açougueiro. Por não ter garantia de instrumentos, procedimentos e médicos profissionais, as mulheres correm o risco de morte.

Há, por não ser legalizado, o medo generalizado que paira sobre as mulheres que procuram as clínicas de aborto. Sendo que as mulheres ricas e de classe média, em sua maioria branca, podem pagar uma clínica com o mínimo de segurança. Sobram, portanto, para as mulheres negras e pobres pagarem o que podem e o que não podem para realizar o procedimento com bastante risco.

O filme Entre Risos e Lágrimas e o documentário Clandestinas que, apesar de serem construídos de forma diferente, debatem algo bastante real: a superação da maternidade compulsória e o direito reprodutivo das mulheres. A discussão banalizar x legalizar o aborto aparece de formas diferentes nos dois filmes, o de ficção traz romance, drama e comédia a uma situação de escolha de Donna e o documentário mostra que criminalizar o aborto é questionar o autoconhecimento e o controle da mulher sobre o próprio corpo. Ambos os filmes deixam claro que o aborto é questão de direito e de saúde pública.

Donna Stern e as mulheres que possuem seus relatos interpretados no documentário Clandestinas têm em comum a consciência de que aborto é uma decisão apenas delas, porém ter uma rede de apoio é fundamental. Mas, Donna vive numa ficção que tem um quê de realidade, já que no estado de Nova York o aborto é legalizado. Diferente das mulheres brasileiras que morrem por recorrerem a medicamentos e a clínicas de aborto clandestinas. As que sobrevivem são silenciadas e são julgadas constantemente por um Estado que deveria ser laico.


Filmes

Entre Risos e Lágrimas (Obvious Child), de Gillian Robespierre

Disponível na Netflix

Clandestinas, de Fádhia Salomão

Por Risla Miranda

Brilha os olhos quando fala de direitos humanos e se vê um dia programando games. Discutir numa mesa de bar acompanhada de uma cerveja bem lupulada é o paraíso. Criatividade vai desde meme a criar estratégias de ação de projetos. Curtindo o rolê de contar histórias através de dados.

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