F1: O filme é dirigido por Joseph Kosinski, conhecido por seus trabalhos de ação, como Top Gun: Maverick (2022), Homens de Coragem (2017) e Oblivion (2013).
O longa concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Edição, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Som. O roteiro é assinado por Kosinski em parceria com Ehren Kruger, que já havia trabalhado com o diretor em Top Gun.
A seguir, analisamos F1: O filme com o nosso Teste Arte Aberta. Para saber mais sobre o teste, confira o texto introdutório.

Sinopse
De acordo com a percepção do Arte Aberta evitando spoilers
A trama acompanha o experiente piloto Sonny Hayes (Brad Pitt), que vive em uma van e percorre diferentes corridas para garantir seu sustento. Após um grave acidente no passado, Hayes se afastou da Fórmula 1, mas é chamado de forma urgente por um antigo amigo de pistas, Ruben Cervantes (Javier Bardem), para integrar sua equipe. À beira de ser vendida, a ApexGP precisa vencer uma corrida para garantir sua sobrevivência. Ao integrar a nova equipe, ele entra em conflito com o jovem piloto Joshua Pearce (Damson Idris), que se vê ameaçado pela chegada de Hayes.

Ótica de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
Sob a ótica de gênero, raça e diversidade, F1 apresenta avanços pontuais, mas mantém limitações estruturais relevantes. No que se refere ao gênero, embora haja mulheres em funções profissionais qualificadas e de liderança dentro da narrativa, nenhuma delas possui arco dramático próprio.
As personagens femininas atuam majoritariamente em função do desenvolvimento do protagonista masculino, tendo sua autonomia progressivamente esvaziada ao longo da trama. A representação feminina, apesar de tecnicamente competente, é atravessada por escolhas narrativas que reforçam hierarquias de poder, especialmente quando o protagonismo masculino se sobrepõe às decisões estratégicas e profissionais das mulheres.
Esse esvaziamento é intensificado pela introdução de um envolvimento romântico entre Sonny e Kate, em posição de liderança técnica. A relação se estabelece em um contexto profissional, sendo construída a partir de investidas de Sonny. Tal escolha narrativa é problemática, pois naturaliza a ideia de que limites profissionais e afetivos podem ser negociados ou superados pela insistência, deslocando o foco da competência feminina e reforçando dinâmicas de poder desiguais no ambiente de trabalho.
A dimensão racial é tratada de forma mais consistente. O filme apresenta personagens não brancos em posições centrais e de apoio relevante, com destaque para Joshua Pearce, co-protagonista que possui trajetória própria, não sustentada por estereótipos raciais. Personagens negros ocupam diferentes funções narrativas e profissionais, o que contribui para uma representação mais plural e qualificada no eixo da raça.
No filme, não há representação de pessoas LGBTQIA+ e, embora a trama inclua acidentes e lesões físicas decorrentes de um esporte de alto risco, essas situações são tratadas exclusivamente como obstáculos temporários ou recursos dramáticos, sem qualquer reflexão sobre deficiência, acessibilidade ou inclusão, reforçando a ausência de representação PcD.

Representatividade de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
Direção e Roteiro*
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
A direção do filme F1 é assinada por Joseph Kosinski, e o roteiro é coassinado por Joseph Kosinski e Ehren Kruger. Ambos são homens brancos e não há declarações públicas que os identifiquem como pessoas LGBTQIA+ ou pessoas com deficiência (PcD).
Dessa forma, a ficha técnica principal (direção e roteiro) é composta por 0% de pessoas não brancas, 0% de mulheres, 0% de PcD e 0% de LGBTQIA+.

Elenco principal*
Créditos iniciais/finais
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
Nos créditos iniciais, aparecem com destaque individual os nomes de Brad Pitt, Damson Idris, Kerry Condon, Tobias Menzies, Kim Bodnia, Sarah Niles, Shea Whigham e Javier Bardem. Em telas conjuntas, constam Samson Kayo, Joseph Balderrama, Callie Cooke, Liz Kingsman, Simon Kunz, Will Merrick e Abdul Salis.
Considerando como elenco principal os nomes apresentados com destaque individual, o grupo é composto por 25% de mulheres, 25% de pessoas não brancas, 0% de pessoas LGBTQIA+ e 0% de PcD, com base em declarações públicas disponíveis.

Representação
Mulheres
Presença (Bechdel-Wallace)
As mulheres têm nome?
Se falam por mais de 60 segundos?
Sobre outro assunto que não seja homens?
Reprovado.
O filme passa na primeira pergunta somente.
Arco Dramático (Mako-Mori)
Tem mulher?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de gênero?
Reprovado.
Nenhuma das mulheres da trama tem arco dramático próprio.
Competência (Tauriel)
Houve mulher(es) com atividade profissional definida?
Ela é competente na atividade?
Grau da Competência Caso a mulher seja competente, quão competentes elas são em sua atividade profissional (1 a 5 , sendo 1 – pouco competente e 5 – muito competente)
Houve reconhecimento dessa competência?
Aprovado.
Nota: 4
Molly (Rachel Walters) aparece no início do filme como assistente de Sonny, exercendo uma função profissional definida e tendo sua atuação reconhecida por ele. Jodie (Callie Cooke) integra a equipe de mecânica da ApexGP, ocupando uma função técnica especializada. No entanto, a narrativa destaca um erro cometido por Jodie durante um pit stop, sendo ela a única mecânica mulher da equipe, depois outro integrante da equipe também comete uma falha, mas a falha dela é a que recebe maior destaque. pois vem seguida de uma orientação de Sonny, fazendo com que o aprendizado da personagem funcione majoritariamente como um recurso narrativo para reforçar o protagonismo masculino.
Kate McKenna (Kerry Condon) ocupa o cargo de diretora técnica da equipe, posição de liderança que exige elevado grau de especialização. A competência de Kate é reconhecida tanto pela confiança depositada por Ruben quanto por sua permanência em um cargo de liderança em um ambiente majoritariamente masculino, condição que a própria personagem explicita como resultado de um percurso difícil. Ao longo do filme, demonstra conhecimento técnico consistente e capacidade de resposta sob intensa pressão. Cabe a ela, inicialmente, a definição das estratégias de corrida e das orientações técnicas da equipe.

Com a chegada de Sonny, no entanto, essas decisões passam a funcionar sobretudo como diretrizes iniciais, sendo frequentemente modificadas ou completamente alteradas por ele durante as corridas. Sonny passa a tomar decisões de forma autônoma, reduzindo progressivamente a centralidade de sua função estratégica.
O carro da ApexGP é apresentado como pouco competitivo no início da narrativa e as mudanças que levam à melhora de desempenho decorrem das exigências e do estilo de pilotagem de Sonny, que pressiona por adaptações estruturais. Kate é responsável por executar essas modificações em tempo reduzido, evidenciando elevada competência técnica. Ainda assim, a construção narrativa atribui a ele a autoria simbólica da transformação da equipe, reforçando uma dinâmica em que o avanço profissional das personagens femininas é condicionado à intervenção do protagonista masculino.
O esvaziamento da autonomia profissional de Kate se intensifica com a introdução do envolvimento romântico com Sonny. A relação não se constrói de forma paralela ou independente de sua trajetória profissional, mas passa a operar como elemento que desloca o foco da personagem, diluindo sua autoridade técnica e simbólica. Em vez de aprofundar sua posição como liderança em um ambiente historicamente masculinizado, o romance funciona como um recurso narrativo que subordina sua representação ao arco do protagonista, reforçando estereótipos de gênero e tornando particularmente problemática a associação entre competência feminina e validação afetiva masculina.
Cabe destacar que, no início da narrativa, a própria Kate estabelece limites claros em relação a qualquer envolvimento amoroso no trabalho. Ela demonstra desconforto e chega a considerar ofensiva a tentativa dele de saber se ela é casada, reação que explicita tanto sua postura profissional quanto a inadequação da abordagem em um ambiente de trabalho hierarquizado e majoritariamente masculino. Apesar dessa recusa inicial, o filme conduz progressivamente a personagem a ceder, culminando em um relacionamento que se desenvolve após aprofundamento do relacionamento entre eles e certas investidas do protagonista.

Essa construção narrativa é particularmente problemática, pois reforça a ideia de que a recusa feminina pode ser temporária ou negociável, e que a insistência masculina é legitimada como persistência romântica. Ao transformar um “não” inicial em um “sim”, o filme naturaliza dinâmicas de pressão emocional e atravessamentos éticos no ambiente profissional, sobretudo quando envolvem posições de poder e reconhecimento. Tal escolha enfraquece a coerência da personagem e contribui para uma representação que relativiza limites, consentimento e autonomia feminina, reiterando padrões narrativos que historicamente comprometem a representação das mulheres em espaços de liderança.
O filme também apresenta personagens femininas com profissões como jornalista, garçom, executiva e uma técnica de equipe de testes, Pippa Leguin (Rosie Dwyer), mas com papel de apoio.
Qualidade da representação – mulheres
Como é a representação das personagens mulheres (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 2
Apesar do filme apresentar personagens femininas com funções profissionais definidas e níveis elevados de competência técnica, sua representação é limitada pela ausência de protagonismo feminino e de arcos dramáticos próprios. As mulheres ocupam posições secundárias na narrativa e, embora não sejam retratadas por meio de estereótipos ofensivos, têm sua autonomia progressivamente reduzida, com decisões estratégicas e avanços profissionais frequentemente condicionados à intervenção de Sonny.
Além disso, a introdução de um envolvimento romântico em contexto profissional hierarquizado contribui para enfraquecer a construção de uma das principais personagens femininas da obra, deslocando o foco de sua trajetória e reforçando dinâmicas de gênero tradicionais.

Raça
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem não branco?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de raça?
Aprovado.
Há personagem não branco com arco dramático próprio não sustentado por estereótipos raciais. Joshua Pearce é co-protagonista e uma espécie de rival-amigo ao lado de Sonny Hayes, apresentado como um piloto jovem, talentoso e controverso, com trajetória própria dentro da narrativa, ainda que a história acompanha mais a trajetória de Sonny.

Qualidade da representação – raça
Como é a representação dos personagens não brancos (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 3
Além de Pearce, o filme apresenta Cash (Samson Kayo), seu assistente, que ocupa um papel de apoio relevante, e Bernadette (Sarah Niles), sua mãe, que aparece em momentos-chave do desenvolvimento do personagem. Dodge (Abdul Salis) também integra a equipe como engenheiro mecânico. Dessa forma, a obra apresenta uma variedade de personagens negros inseridos em diferentes funções narrativas e profissionais, com qualidade de representação e sem recorrer a estereótipos raciais.

LGBTQIA+
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem LGBTQIA+?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de LGBTQIA+?
Reprovado.
Não há representação LGBTQIA+ no filme.
Qualidade da representação – LGBTQIA+
Como é a representação das personagens LGBTQIA+ (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 0
Não há representação LGBTQIA+ no filme.
PcD
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem PcD? Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de PcD?
Reprovado.
Embora o protagonista Sonny Hayes apresente sequelas físicas graves decorrentes de um acidente anterior e, ao final do filme, seja de certa forma impedido de competir por Ruben Cervantes, o filme não o enquadra como pessoa com deficiência. As limitações físicas são tratadas como um recurso narrativo. É algo identificado por Cervantes após um novo acidente de Hayes, sem que haja uma abordagem sobre deficiência, acessibilidade ou necessidade de adaptações, mesmo quando o personagem disputa sua última corrida na Fórmula 1 e segue competindo em outras modalidades.
Qualidade da representação – PcD
Como é a representação das personagens PcD (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 0
O filme contextualiza a Fórmula 1 como uma atividade profissional de altíssimo risco, marcada por acidentes recorrentes e protocolos médicos rigorosos. Ao longo da narrativa, lesões físicas levam tanto Sonny Hayes quanto Joshua Pearce a afastamentos temporários das pistas até a recuperação clínica. Nesse sentido, o filme apresenta a F1 como um ambiente regido por critérios específicos de segurança e avaliação médica, sem abordar possibilidades de adaptação ou inclusão de pilotos com deficiência, o que reforça a ausência de representação PcD na obra.
Resumo do Teste Arte Aberta

Representatividade


Representação



Estrelas Arte Aberta: 1,5

