18 de agosto de 2026

Carta para Angela | O convite

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Angela,

A sua casa é a sua arte, sua profissão colocada ali dia a dia, nos afazeres cotidianos, nos cuidados com a filha e também na busca incessante por reformá-la à risca com o seu desejo. Seu apartamento é a sua tela, reciclada a partir de investigações em brechós, em achados de pequenos tesouros que parecem muito mais caros do que são. 

O seu apartamento é todo pensado milimetricamente, mas há dois cômodos que destoam: o estúdio de Joe e o quarto do casal. Enquanto a casa inteira puxa para tons de verde, o reduto de Joe, com seus livros e piano empoeirados, apresenta tons amarelados e terrosos. Lá não há o seu toque, Angela, o que prevalece é o caos, o passado e os amores esquecidos de Joe. Um ambiente bacana e intelectualizado, mas parado no tempo. O quarto de vocês dois ainda falta ser pintado, a questão é que você não consegue escolher entre três tons de azul, que, para você, são nitidamente diferentes. Nesta, eu fico com Joe, não dá para diferenciar aquelas cores.

A casa é o seu espaço de privacidade. Agora, porém, ela está pronta (ou quase) para receber outras fontes de seu desejo: os vizinhos de cima!

Quando Joe chega em casa, após deitar no chão para amenizar as dores nas costas, percebe que na sala de estar há aperitivos de queijos e presuntos (jamón ou prosciutto?), os quais ele ainda não pode comer, já que vocês receberão a visita de Piña e Hawk logo mais. Ele fica imediatamente indignado, e tenta de todas as formas te convencer a desconvidá-los, reclama da estranheza de Hawk e ameaça falar do incômodo frequente dos barulhos sexuais da casa dos vizinhos. 

Você tenta colocá-lo na linha, pedindo que ele saia de casa e entre novamente com uma outra atitude, um dos novos “hacks” que você aprendeu em um podcast. Que bom se a vida contasse com esse “control-Z”! Não tem, Angela, infelizmente. Talvez vocês poderiam retomar o tempo antes do rancor e da desesperança começar a consumir o amor de vocês. 

Mas como não sentir rancor se a conexão de vocês foi tão quebrada que vocês não transam mais? A psicoterapeuta Esther Perel escreve assim: 

“Vejo pessoas que sabem que são amadas, mas querem ser desejadas. Todas elas me procuram porque desejam vitalidade erótica. Às vezes, chegam encabuladas; outras vezes, desesperadas, abatidas, revoltadas. Não sentem falta apenas do ato sexual, mas do sentimento de conexão, de jovialidade e renovação proporcionado pelo sexo” (1). 

Voltando aos fatos, no meio da discussão, o casal chega e de cara já deixa evidente as diferenças entre vocês, na proximidade que Piña e Hawk apresentam, nas falas baixinhas em espanhol, na liberdade que eles carregam em ser eles, sem se preocuparem com os julgamentos que recebem – inclusive de vocês. Fiquei querendo saber sobre o seu começo com Joe. Vocês também tinham segredinhos, falavam uma linguagem própria, riam um do outro? Nessa fase de risos que chegam sem graça, mais para apontar falhas do que para compartilhar uma alegria, lembrei da música O vento de Los Hermanos (2), que diz assim:

“Se a gente já não sabe mais / Rir um do outro, meu bem / Então, o que resta é chorar / E talvez, se tem que durar / Vem renascido o amor / Bento de lágrimas”.

E essas dores nas costas de Joe, começaram quando? Será que coincidem e se enraízam junto com o seu rancor, com o seu piano empoeirado ou com o fim da sua banda juvenil? Angela, fiquei imaginando os olhares trocados entre vocês no bar no dia em que vocês se conheceram, você abandonando o date falido e correndo de volta para encontrar o “cara da banda”. A banda de Joe acabou, acontece. Ele, porém, decidiu viver eternamente naquele estágio de decepção. 

Você abandonou a sua profissão pela casa e pela família, mas, mesmo assim, conseguiu direcionar a sua vida criativa para a sua casa. A escritora e terapeuta Clarissa Pinkola Estés (3) escreve assim:

“Há uma época na nossa vida, geralmente na metade da vida, em que precisamos tomar uma decisão – possivelmente a decisão psíquica mais importante para nossa vida futura – a respeito de nos tornamos amargas ou não”.

Percebo, Angela, que Joe seguiu o caminho da amargura, e você, pelo menos, tenta ajustar a sua vida pela aceitação. Afinal, ter uma postura de encantamento com a vida ajuda a acertar nossa rota. Não é reclamando que conseguiremos ter forças para mudar algo. Não é nos envenenando com mágoa e rancor que vamos conseguir produzir algo de bom nessa vida. Esse é um dos meus maiores medos, acredita? Todos os dias tento me lembrar que é melhor escolher uma vida criativa e não me envenenar de amargura pelas pedras e perdas no caminho.

Porém, Angela, no relacionamento, você também se fechou, se calou e criou barreiras. A vida é sobre escolhas, e por muitas delas optamos acreditar que tudo pode ser revertido amanhã. Só que, um dia, “o amanhã” se transforma em semanas, em meses, em anos, e já não nos  lembramos mais o caminho de volta para aquela casa que nos acolhia, nos estimulava, que amávamos e da qual cuidávamos. Parece que você desistiu da “libido” entre você e Joe. Libido como força vital, como impulso de vida, como desejo, como tesão, mas não apenas sexual, e sim como aquela vibração de compartilhar momentos juntos, de realmente viver junto. Você transformou todo o apartamento, mas deixou inacabado o quarto do casal. É a metáfora do limbo no qual vocês se colocaram. Finalizar o quarto seria decidir: ficar ou partir; dois caminhos difíceis e que trariam consequências trabalhosas. Você prefere a indefinição. 

Voltando ao presente, ainda tem muito que quero falar com você sobre esse jantar. O seu convite abriu a porta para um outro convite. Um chamado para explorar a sexualidade (para além só do sexo), o despreendimento e testar, a partir do nível de confiança e de intimidade entre você e Joe, o que poderia ser explorado com outras pessoas. Sua contenção sempre tão presente parece querer se derreter, mas mesmo nessas horas você mantém um ar blasé, como se toda aquela emoção, toda aquela libido fosse natural em sua vida. E não me entenda mal, eu quero é que faça parte mesmo! Nada que emana dos seus vizinhos de cima, contudo, é parte do seu cotidiano. Ou é? Porque eu também descobri uns segredos seus, como essa escolha por ser olhada e desejada de longe, pela janela, por Hawk. A janela, Angela, me faz pensar sobre a oposição entre o interno e o externo, “uma vez que também é preciso dar um destino de exterior ao ser interior”, como escreveu Bachelard (4). A janela é uma imagem que nos chama para fora de nós mesmos. Ela te chamou, e você foi.

Querida, eu lembrei da cena de Silvia, em O homem que copiava (5), com essa malícia que você também teve para se fazer vista, que apesar da escolha ativa dessa ação, coloca o desejo no olhar do outro. Silvia, quando percebe que André a observa da sua janela, passa de calcinha e sutiã para que ele a veja. Ele acredita que pescou esse momento por sua persistência nesse voyeurismo (e já disse que, em se tratando de dois jovens, não vamos validar essa atitude dele, ok?!). O fato que gosto de lembrar, e quero ressaltar aqui, é que ela escolheu ser vista, assim como você. Chego a imaginar você no banho, antecipando aquele momento de alta intensidade ao passar pela janela da sua casa. Trago aqui mais uma vez a nossa amiga Esther Perel:

“O erotismo está no espaço ambíguo entre a ansiedade e a fascinação” (1).

Joe se surpreende com a sua atitude, não imaginava que aquela mulher tão distante, fria e controladora (na visão dele) havia se colocado numa posição de despertar o desejo daquele casal estranho e sexual. Joe, porém, muda de atitude, quando “o convite” de Piña e Hawk o inclui. É cômico e revelador de sua tamanha baixa autoestima, quando ele pergunta repetidamente se ele também estaria incluído nesse swing que estaria prestes a acontecer. Você, querida Angela, por outro lado, parece pronta para explorar essas novas possibilidades de prazer. Ávida, porém desconcertada, ao ponto de responder com “namastê” o beijo inesperado de Piña.

Tudo poderia ter sido diferente, mas não foi. Amor Fati. Joe sentiu a tal dor nas costas, Piña acusou Hawk de ter se precipitado com “o convite”, Hawk tentou corrigir o inglês de Piña (o que ela rapidamente entendeu como uma tentativa de minimizar o seu poder), e você, Angela, percebeu que a vida real está mais difícil de transformar do que seu apartamento. Que talvez não tenha uma reforma que resolva a falta de cor no seu casamento com Joe. 

Acredito, Angela, que chegou a hora de sair do conforto/desconfortável da indecisão, de partir para os trabalhos das consequências da escolha que você tem que tomar. Chegou a hora de trazer a sua criatividade para a sua vida pessoal. Chegou a hora, querida Angela, de pintar as paredes do seu quarto, com o azul que você escolher.

Sobre o filme O convite (2026), de Olivia Wilde

Este é o terceiro longa-metragem de Olivia Wilde (para os amantes da série House, a nossa eterna 13th). Antes a diretora dirigiu: Fora de Série (2019) e Não se preocupe, querida (2022). O convite aposta em um elenco, a princípio, improvável, mas que funciona muito bem: Olivia Wilde (Angela), Seth Rogen (Joe), Penélope Cruz (Piña) e Edward Norton (Hawk). O humor é rápido, com diálogos sustentados muito bem pelo elenco. 

O roteiro é assinado por Will McCormack e Rashida Jones, parceiros criativos de outras obras como o longa Celeste e Jesse para Sempre (2012). O convite é um remake do filme espanhol Sentimental, de Cesc Gay, que, por sua vez, é baseado na peça, também escrita por Cesc Gay, Els veïns de dalt (Os vizinhos de cima).

Na temática e na estética, O Convite é “cinema de intimidade” (6). A obra transcorre majoritariamente com apenas quatro personagens, dentro do apartamento de Angela e Joe, que recebe o casal Piña e Hawk. Pensar no conceito de “intimidade” como gênero cinematográfico é essencial para essa visão tão pessoal de escrever cartas para personagens mulheres do audiovisual. 

No “cinema de intimidade”, a vida íntima, a amizade, a sexualidade e as emoções humanas estão em destaque. E não é apenas a temática que o caracteriza, mas a sua forma, a sua estética, os seus espaços e as suas  técnicas. Assim, o cinema de intimidade é um gênero que passa pelas práticas cotidianas para revelar a intimidade, que tem na casa o seu espaço de  proteção e revelação. Tudo isso está presente e exacerbado no filme.

A casa é a epítome deste cinema. Para Angela, a casa é o lugar no qual ela abriga a sua vida criativa. Se ela se comporta com contenção e controle nas relações pessoais, mais ainda com seu marido, a casa recebe o seu cuidado e a sua arte. Cada cômodo expressa uma camada sobre os personagens. Toda a trama do filme acontece no interior deste apartamento. Só olhamos para fora quando passamos pela janela, aquela mesma que Angela tinha seus momentos de exposição ativa para o casal de cima. E tudo se volta para histórias humanas, como luto, transformações, aceitação; apesar de se falar o tempo todo “apenas” de sexo.

Cartas para Elas

O projeto Cartas para Elas começou no portal do Coletivo Arte Aberta, com textos sem frequência ou periodicidade, teve algumas edições de conversas no Podcast Cartas para Elas, foi selecionado no Edital no 5/2019 – FAC Mais Cultura, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, para o desenvolvimento de um livro. O livro Cartas para Elas foi lançado pela Editora Segundo Selo, em 2024. A obra reúne 19 cartas dedicadas a mulheres, explorando temas como intimidade, amizade, afetividade e amor. Em cada correspondência, cria-se diálogos profundos que atravessam a ficção e a vida cotidiana, conectando suas histórias à literatura e ao audiovisual. A carta apresentada aqui não está presente no livro. 

As destinatárias/personagens das cartas presentes no livro são:

  1. Carta para Glorinha | Separações
  2. Carta para Rosa | Como nossos pais
  3. Carta para Ash | Sing – quem canta seus males espanta
  4. Carta para Moana | Moana: um mar de aventuras
  5. Carta para Shonda Rhimes
  6. Carta para Nadia | Boneca russa
  7. Carta para Joy | Wanderlust – Navegar é preciso
  8. Carta para Liniker | Intimidade
  9. Carta para Nicole | História de um casamento
  10. Carta para Radha | The forty-year-old version
  11. Carta para Cassandra | Manhãs de setembro
  12. Carta para Margot | Entre o amor e a paixão
  13. Carta para Silvia | O homem que copiava
  14. Carta para Juliana | Temporada
  15. Carta para Alike | Pária
  16. Carta para Florence | A livraria
  17. Carta para Clara | Aquarius
  18. Carta para Paulinha | O último cine drive-in
  19. Carta para Violeta | Café com canela

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Notas e referências:

(1) Perel, Esther. Sexo no cativeiro: Como manter a paixão nos relacionamentos (Portuguese Edition) (pp. 13-14). Objetiva. Edição do Kindle. 

(2) O vento

Música, de Rodrigo Amarante, da banda Los Hermanos, lançada no álbum 4, em 2005.

(3) ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro, Rocco, 2018.

(4)  BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. In: Os pensadores . São Paulo: Abril Cultural, 1978.

(5) O homem que copiava

O homem que copiava, lançado em 2003, é dirigido por Jorge Furtado. Silvia é interpretada por Leandra Leal. 

(6) TÁVORA, Lina. Cinema de Intimidade: Proposta de gênero para o novo cinema brasileiro. 2010. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Curso de Pós-Graduação em Comunicação Social, Universidade de Brasília, 2010.

Acesse aqui: https://repositorio.unb.br/handle/10482/7340

Lina Távora

É uma cearense que mora em Brasília, jornalista fora da redação, mestre em comunicação/cinema, feminista em construção, mãe com todo o coração e tem no audiovisual uma paixão constante e uma fé no seu impacto para uma mudança positiva na sociedade.

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