Precisamos falar com os homens? | Crítica

Uma jornada pela igualdade de gênero

Uma parceria entre a ONU Mulheres, o site Papo de Homem e o Grupo Boticário resultou em uma pesquisa sobre o machismo no Brasil e a formação de estereótipos de gênero. A pesquisa incluiu diversos estados e mais de vinte mil participantes. Foram abordados os seguintes temas: relacionamentos, violência e comportamento. O objetivo era mapear atitudes e crenças de diversos perfis brasileiros sobre esses eixos temáticos e fazer com que as pessoas entendam os diversos tipos de violências de gênero que existem, consigam fazer críticas sobre seu próprio comportamento e depois coloquem esses aprendizados em prática.

A pesquisa se desenvolveu em um projeto audiovisual e deu origem ao filme Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero, de Luiza de Castro e Ian Leite. O documentário está disponível no Youtube e estará em breve também na plataforma Videocamp.

O filme é bem didático e apresenta informações sobre o que é feminismo e como reconhecer a violência contra a mulher, com gráficos e ilustrações, além de depoimentos de estudiosos, jornalistas, feministas e entrevistados diversos sobre as desconstruções dos padrões de gênero impostos.

Esse assunto envolve também falar sobre racismo, desigualdades sociais, relações de trabalho, paternidade e principalmente o machismo enraizado em nossa cultura e ensinado repetidamente, em prejuízo não só das mulheres, mas também dos homens.

Esse é, inclusive, o foco principal do filme. Compreender de que forma o machismo afeta os homens. Na sua relação com as mulheres, com a sociedade e consigo mesmo.

Para Aline Ramos, do site Que nega é essa?, “precisamos de maneira urgente falar com os homens sobre as questões de gênero. Porque quando a gente fala de gênero, a gente não está falando só sobre o feminino, a gente está falando do masculino também”.

Ivan Martins, outro depoente do filme, explica essa necessidade: “O que é ser homem está cheio de carga, cheio de regras. Regras de comportamento pessoal, regras de relacionamento com as mulheres, regra de atitudes sociais. ‘Homem não leva desaforo para casa’. ‘Mulher minha não faz isso ou não faz aquilo’. Essas coisas ficam ecoando na sua cabeça e com o tempo elas te definem”.

Muito se fala sobre como o machismo afeta as mulheres, mas ainda há um grande desconhecimento sobre os malefícios que ele traz aos homens. No dia a dia, eles são ensinados a não expor seus sentimentos e a evitar um amplo rol de carreiras e hobbies que não se enquadram nas definições conservadoras de masculinidade. São privados de conviver de forma mais próxima com os amigos e de exercer em sua totalidade as possibilidades da paternidade.

Segundo Benedito Medrado, pesquisador e professor de psicologia, os efeitos do machismo podem ser ainda mais profundos: “Quando você pensa nas causas de adoecimento e morte dos homens, pensa em câncer de próstata, câncer de pênis. Essas são algumas das causas, mas não são as principais. A principal causa de morte dos homens é o machismo. E ele mata os homens por vários motivos, seja pelo descaso com a saúde, pela relação perigosa com bebidas alcoólicas ou com o modo agressivo de dirigir”.

O filme Precisamos falar com os homens? apresenta soluções pedagógicas interessantes para tentar reverter essa situação. Além do conhecimento gerado a partir da pesquisa desenvolvida, temos contato com instituições que debatem o machismo e o modelo atual de masculinidade. É o caso do Instituto Papai, de Recife, que foi criado em 1997 e trabalha principalmente com homens jovens, muitas vezes dentro do próprio ambiente escolar. As atividades propõem reflexões sobre “a invisibilidade da experiência masculina no contexto da vida reprodutiva e no cuidado com as crianças”.

Da mesma forma o Instituto Pró-mundo, do Rio de Janeiro, trabalha a promoção da equidade de gênero e a prevenção da violência com foco no envolvimento de homens e mulheres na transformação de masculinidades. As atividades envolvem as diversas maneiras de se lidar com as emoções, formas de transformar comportamentos agressivos em não-agressivos e de educar os filhos fora dos ciclos de violência.

São propostas interessantes para tratar esses temas nas escolas, nas comunidades, nos meios de comunicação e nas políticas públicas. O documentário expõe uma abordagem necessária sobre o machismo e se destaca não só por apresentar informações para quem inicia agora essas reflexões, mas também por dar visibilidade a projetos que desenvolvem experiências libertadoras a essa lógica estereotipada sobre o que é ser homem.

Como conclui no filme a Dra. Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres Brasil, “as mulheres vão seguir lutando, vão seguir nas ruas, no trabalho, nas universidades. Mas agora precisamos que os homens façam sua parte. É um momento para que eles revisem suas masculinidades e aprendam a ser homens de outro jeito. Essa mudança é muito boa para as mulheres, mas é boa para os homens também. É uma situação em que todo mundo ganha”.

Mais informações:

Filme na íntegra:
Mais informações sobre a pesquisa: https://goo.gl/kW7NoF
Instituto Papai: https://goo.gl/UDYB7B
Instituto Pró-mundo: http://promundo.org.br/

Ficha técnica do projeto:

Uma iniciativa: ONU mulheres e PapodeHomem

Viabilização: Grupo Boticário

Concepção e implementação: PapodeHomem e Questto | Nó Research

Realização do documentário: Monstro Filmes e Questto | Nó Research

Direção audiovisual: Ian Leite e Luiza de Castro

Produção executiva: PapodeHomem

Pesquisa qualitativa: Questto | Nó Research

Pesquisa quantitativa: Zooma

Apoio especial: Heads Propaganda

Apoio institucional: ONU, ElesPorElas, Organização Pan-Americana de Saúde, O Valente Não É Violento, UNA-SE Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres.

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