Categorias
Listas

7 obras audiovisuais e o combate ao tráfico humano | Campanha coração azul

Compartilhe!
tráfico humano Pureza

30 de julho foi escolhido como dia mundial de combate ao tráfico de pessoas. A data foi definida pela Assembleia Geral das Nações Unidas e visa conscientizar a população sobre a temática através da campanha Coração Azul, uma iniciativa para chamar atenção das pessoas para o combate ao tráfico humano e para facilitar o reconhecimento de suas características.

Apesar de muitas pessoas acreditarem que o tráfico humano é coisa do passado, uma realidade muito distante ou existente apenas em filmes e restrita a países longínquos, trata-se de um dos principais crimes da atualidade e é muito mais frequente do que imaginamos. De acordo com o relatório do Escritório das Nações Unidas Contra a Droga e o Crime (UNODC), estima-se que esse tipo de crime movimente mais de R$ 30 bilhões de dólares por ano, sendo uma das atividades ilícitas que mais rende dinheiro no mundo.

Mais de 50 mil pessoas são vítimas de tráfico humano anualmente. Um terço delas é composto por crianças e adolescentes e, do número total, cerca de 72% são meninas e mulheres (49% mulheres adultas, 21% homens adultos, 23% meninas e 7% meninos). O tráfico de pessoas costuma girar em torno de trabalho forçado, exploração sexual, venda ilegal de órgãos, casamento forçado, uso de crianças em exércitos e servidão doméstica.

A ONU alertou que durante a pandemia do novo coronavírus o tráfico humano pode ter se tornado ainda mais ativo. Muitos processos legais e investigações foram interrompidos e muitas redes de atendimento para vítimas foram suspensas. Houve ainda um aumento gigantesco de pessoas em situação de vulnerabilidade com a perda de empregos, de moradia e da escola como possibilidade de abrigo e alimentação. Isso deixou muitas pessoas em situação de rua, o que é aproveitado pelos traficantes para abordar possíveis vítimas prometendo emprego e auxílio.

Além disso, a pandemia e a dificuldade de utilizar os meios tradicionais de recrutamento lançaram luz sobre outra forma de se aproximar das vítimas: a tecnologia e as redes sociais. Nos últimos anos tem aumentado muito a tendência de tráfico de pessoas através do ciberespaço, aproveitando a crise internacional e o maior tempo que adultos e crianças têm passado na internet.

Apesar de todas essas dificuldades, a ONU divulgou em um relatório de 2018 que nos últimos anos “a capacidade das autoridades nacionais de rastrear e avaliar os padrões e fluxos de tráfico de pessoas melhorou em diversas partes do mundo”. Isso ocorre por um aumento na capacidade de identificar as vítimas e de coletar e registrar dados. “Em 2009, apenas 26 países tinham alguma instituição que recolhia e divulgava sistematicamente dados sobre casos de tráfico, enquanto que, até 2018, o número aumentou para 65”.

É importante conhecer os dados relativos ao tráfico humano, incentivar o interesse da sociedade sobre a temática justamente para gerar um envolvimento cada vez maior da população e para que se exija empenho e capacitação das autoridades para lidar com a questão.

Nesse sentido, o Arte Aberta listou algumas obras audiovisuais que abordam o tráfico de pessoas. Um assunto extremamente pesado e perturbador, mas que é necessário estar cada vez mais presente nos debates oficiais e nas rodas de conversa para facilitar o reconhecimento e seu combate. É a partir do reconhecimento de que o problema existe e da identificação de seus padrões que podemos fazer algo a respeito.

Pureza, de Renato Barbieri

tráfico humano
Dira Paes e Pureza Loyola

Baseado em uma história real, o longa-metragem brasileiro Pureza conta a história de uma mãe que durante anos procurou o filho desaparecido. Em busca de melhores condições financeiras, Abel decide trocar a produção de tijolos, na qual sempre trabalhou com a mãe, pelo garimpo, mas nunca chega ao seu destino. Pureza começa então uma longa jornada para encontrá-lo.

Nesse processo, ela descobre um grande esquema de tráfico de pessoas que abastece fazendas da Amazônia com trabalho escravo. Os aliciadores (conhecidos como gatos) circulam pelas cidades da região procurando trabalhadores em busca de emprego e os atraem com promessas de um bom salário. Uma vez isolados nas fazendas, no meio do mato, esses trabalhadores têm seus documentos confiscados e são impedidos de ir embora. Lá são maltratados, torturados e muitas vezes assassinados.

Em um esquema de servidão por dívida, nunca são capazes de pagar o que os sequestradores afirmam que eles devem (por comida, alojamento, ferramentas, etc), e assim são mantidos em cárcere privado por tempo indeterminado, sendo trocados de fazenda em fazenda a depender da necessidade dos proprietários das terras.

Procurando pelo filho, Pureza se infiltra em uma dessas fazendas e acompanha de perto o sofrimento e a exploração das pessoas escravizadas. Em uma tentativa de salvá-las, ela denuncia os crimes e descobre que existem pessoas muito poderosas por trás do esquema de trabalho escravo na Amazônia, estando longe de se tratar de um esquema pequeno e isolado.

Pureza é um filme angustiante, mas necessário. Joga luz sobre situações pouco debatidas pelo povo brasileiro e lhe apresenta uma verdadeira heroína ainda tão pouco conhecida no país. Pureza Loyola tornou-se um símbolo da luta contra a exploração da mão de obra escrava no Brasil. Foi imprescindível para o reconhecimento do que hoje se considera trabalho escravo moderno e para a criação, na década de 90, do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, que uniu Executivo, Ministério Público do Trabalho e Judiciário para operações in loco de fiscalização no campo e na cidade.

O filme contou com agentes de fiscalização reais e com trabalhadores libertos de cativeiro no elenco, o que acrescentou veracidade a uma história já poderosa. Pureza conquistou diversos prêmios em festivais nacionais e internacionais e terá sua estreia no circuito comercial em breve.

Salve Jorge, novela de Glória Perez

No Brasil, a novela Salve Jorge abordou o esquema de tráfico de pessoas no país. Exibida entre 2012 e 2013, a novela acompanhou a trajetória de Morena, uma jovem com problemas financeiros, moradora do Complexo do Alemão, que foi enganada com falsas promessas de trabalho no exterior.

Claudia Raia interpretava a grande vilã, Livia Marini, uma mulher elegante, sofisticada, que não levantava suspeitas e que dizia estar contratando mulheres para trabalhar como modelos internacionais. Com empresa de fachada e diversos olheiros, o esquema aliciava dezenas de mulheres com dificuldades financeiras que acreditavam se tratar de um projeto real e de uma promessa imperdível para mudar de vida e ajudar suas famílias.

Uma vez fora do Brasil, elas eram escravizadas e prostituídas. A protagonista Morena foi obrigada a trabalhar em uma boate na Turquia durante meses, enquanto no Brasil, uma equipe especializada investigava o caso e procurava pistas e provas contra os traficantes.

Em 2013, houve uma grande repercussão em torno do caso de uma mãe brasileira que, assistindo à novela, identificou similaridades entre o caso da protagonista e de sua própria filha, que havia sido levada para a Espanha para trabalhar como garçonete. Ela denunciou sua suspeita e gerou uma grande operação que libertou dezenas de mulheres traficadas em Salamanca.

Eu sou todas as meninas, de Donovan Marsh

O longa-metragem sul-africano é obra original da Netflix e é baseado em uma história real. Entre 1988 e 1989, Gert van Rooyen e um cúmplice sequestraram seis meninas (além de serem suspeitos de terem sequestrado e assassinado várias outras jovens com idades entre 9 e 16 anos como parte de uma rede de tráfico de pessoas da África do Sul para o Oriente Médio). Na vida real, uma das vítimas escapou e conseguiu alertar a polícia, o que deflagrou uma grande operação que desmontou o esquema de tráfico infantil orquestrado por ministros do Partido Nacional.

No filme da Netflix, a história central se passa anos depois do sequestro dessas seis meninas, quando uma série de assassinatos chama a atenção da polícia. A investigadora responsável identifica a relação entre esses novos crimes e o desaparecimento das jovens anos atrás. Ela precisa correr contra o tempo para entender essas pistas, desmontar a rede de tráfico que envolve tantas pessoas poderosas e salvar outras centenas de meninas.

Òlòturé (Por uma vida melhor), de Kenneth Gyang

O filme nigeriano Òlòturé também é baseado em uma história real e narra a investigação de uma jornalista que se infiltra em uma rede de prostituição para denunciar um esquema de tráfico sexual internacional.

Òlòturé finge ser prostituta para ter acesso a cafetinas, traficantes e clientes (descobrindo inclusive o envolvimento de muitos políticos). As coisas fogem do controle quando ela é traficada para outro país, perdendo o contato com a redação do jornal e experienciando a violência e o desespero das jovens que acreditavam estar indo em busca de melhores oportunidades de vida.

Azali, de Kwabena Gyansah

Esse foi o primeiro filme de Gana a ser enviado para o Oscar, em 2018, para concorrer na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Não foi escolhido pelos jurados nas etapas seguintes da competição e, portanto, não chegou a ser indicado, mas demonstra que o país acreditou no potencial do longa-metragem para representá-lo pela primeira vez em uma das premiações de cinema mais conhecidas do mundo.

Dirigido por Kwabena Gyansah, o filme conta a história de Amina, uma jovem que vive em uma pequena cidade de Gana com a mãe, a avó e o tio. A família passa por muitas dificuldades financeiras e, à medida que a menina cresce, sua mãe se depara com duas opções: casá-la com um homem idoso que insiste em torná-la sua quarta esposa ou enviá-la para trabalhar em outra cidade.

Para evitar o casamento forçado, a mãe a envia para longe para trabalhar com uma mulher indicada por uma vizinha (cabe destacar que muitos casos de tráfico humano envolvem conhecidos, amigos, parentes e amigos de amigos como aliciadores ou seus ajudantes). Amina logo descobre que não se trata de um emprego e que está sendo vendida junto com dezenas de outras crianças. Mais do que se debruçar sobre o esquema do tráfico em si, o filme aborda as trajetórias dessas crianças levadas para longe de suas famílias e de suas cidades, sem dinheiro, completamente sozinhas e obrigadas a se virarem da forma que for possível para tentar sobreviver.

É uma obra difícil de assistir, que muitas vezes embrulha o estômago e dá vontade de desviar o olhar da tela. Mas é importante em sua denúncia da cruel situação a que estão expostas tantas pessoas, incluindo crianças e adolescentes, que vivem nas ruas de Gana, vulneráveis à violência, à miséria e à normalização da prostituição e do trabalho infantil, o que inevitavelmente contribui para fortalecer as redes de tráfico e exploração humana.

Sangue e água, série de Nosipho Dumisa, e Amor de mãe, novela de Manuela Dias

tráfico humano

Sangue e Água foi a segunda série original da Netflix na África do Sul e conta uma história baseada em um caso real. Ambientada na Cidade do Cabo, a trama acompanha a adolescente Puleng Khumalo, que teve uma irmã sequestrada na maternidade há 17 anos. Há quase duas décadas, a família convive com as repercussões desse crime, cada um afetado de uma forma diferente.

Ao conhecer Fikile, uma jovem de família rica que comemora aniversário na mesma data da sua irmã desaparecida, Puleng começa a suspeitar de que se trate da mesma pessoa. Com uma determinação que muitas vezes se confunde com obsessão, Puleng se transfere para a escola de Fikile e tenta de todas as maneiras se aproximar dela, se infiltrando em sua casa e em seu grupo de amigos.

A série é baseada em um caso real que ficou famoso na África do Sul. Um bebê foi sequestrado na maternidade por uma mulher vestida de enfermeira e por 17 anos foi criado por outra família que vivia próxima dos pais biológicos da criança. A polícia não solucionou o caso e a questão só foi descoberta quando as duas irmãs passaram a estudar na mesma escola e sua semelhança chamou atenção.

Enquanto as obras listadas anteriormente focam no tráfico humano para exploração sexual e trabalho forçado, Sangue e Água aborda o sequestro de bebês e sua venda como mercadoria. Tema parecido foi abordado na recente novela das 21h da Rede Globo, Amor de mãe, em que o filho da protagonista foi vendido pelo pai (sem conhecimento da mãe) em uma cidade do interior do Rio Grande do Norte para uma traficante de crianças. De lá, o menino foi levado para o Rio de Janeiro, onde junto com outras crianças seria vendido para casais brasileiros e estrangeiros.

O crime é estimulado pela grande quantidade de pessoas que deseja filhos sem as burocracias do sistema oficial de adoção. Muitos desses compradores são informados de que as crianças foram abandonadas, mas sendo um esquema ilegal e não oficial, não há registro e rastreio que confirme a história contada, havendo sempre a possibilidade de sequestro. Além da “adoção”, crianças são compradas para diversas outras finalidades.

Infelizmente, o rastreio ainda é muito difícil devido principalmente à subnotificação, afinal muitas das mães são mulheres em situação de extrema vulnerabilidade, sem recursos e informações para mobilizar as autoridades competentes e a mídia.

Por Luciana Rodrigues

É formada em Audiovisual e em Letras Português. Uma brasiliense meio cearense, taurina dos pés à cabeça, apaixonada pela UnB, por Jorge Amado e pelo universo infantil. Aprecia o cult e o clichê, gosta de Nelson Pereira dos Santos e também gosta de novela. E, apesar de muitos dizerem o contrário, acha que essa é uma ótima combinação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *