
O mais novo filme de Tarantino se passa no final da década de 1960 e aborda uma história real, trágica e chocante, optando por contá-la através de uma realidade alternativa.
Estrela de Hollywood em ascensão, Sharon Tate foi uma atriz e modelo estadunidense que concorreu ao Globo de Ouro pela atuação em O vale das bonecas, em 1967. Aos 26 anos, ela estava casada com o diretor Roman Polanski e grávida de cerca de oito/nove meses. Ficou em repouso na casa do casal em Los Angeles durante o verão enquanto o marido filmava na Europa.
No dia 08 de agosto de 1969, enquanto Sharon recebia alguns amigos, sua casa foi invadida por membros de uma seita hippie que ficou conhecida como Família Mason, devido ao líder Charles Mason. Acredita-se que ele planejava uma guerra racial em defesa da supremacia branca e reunia jovens, especialmente mulheres, que o seguiam como se fosse uma figura messiânica.
O crime em questão era destinado ao antigo morador da casa, que teve um desentendimento com Charlie Mason e se mudou da cidade com a família um tempo antes. O caso teve ampla repercussão na mídia e chocou o mundo pelo seu nível de violência.
Sinopse geral do filme
De acordo com a percepção do Arte Aberta evitando spoilers
Na versão de Tarantino, a história é contada através de três núcleos. Enquanto acompanhamos Sharon Tate (Margot Robbie) ao longo da temporada na casa de Los Angeles, conhecemos seu vizinho, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), ator de faroeste que sofre com o declínio da carreira, e seu dublê/motorista/faz-tudo, Cliff Booth (Brad Pitt).
Rick e Cliff são personagens fictícios que circundam diariamente a casa Tate/Polanski sem conhecer ou interagir com seus moradores. Rick passa por uma crise profissional e tem dificuldades para se adaptar às mudanças do cinema e da televisão no final da Era de Ouro de Hollywood. Enquanto isso, Cliff vive de bicos e leva uma vida bem menos glamourosa do que Rick, Sharon e qualquer uma das estrelas de Los Angeles.

A ótica das mulheres
À medida que os eventos se direcionam para o macabro 08/08/1969, acompanhamos o dia a dia dos três personagens: Rick, Cliff e Sharon. No longa, Sharon é colocada em segundo plano e o destaque recai sobre os dois personagens fictícios. Como a própria Margot Robbie, que a interpretou, reflete: “ela é uma ideia, uma presença”, e orbita em volta dos outros dois personagens, enquanto a ação está focada neles.
O filme conta também com uma atriz mirim de oito anos que contracena com Cliff em uma gravação. Não sabemos seu nome real porque, no processo para imergir no papel, a jovem pede para ser chamada apenas pelo nome da personagem que interpreta, Marabella. É uma menina séria, dedicada ao trabalho e claramente talentosa. Odeia perceber traços de paternalismo e não tem medo de repreender adultos. Demonstra compaixão e preocupação com Rick quando ele aparenta estar triste. Ela não contracena com outras mulheres e aparece em apenas duas cenas, todas com Rick Dalton.
Além de Sharon e Marabella, vale o destaque para as mulheres da comunidade hippie. Elas estão por toda a cidade pedindo carona, mas aparecem de forma mais contundente no Rancho Spahn, antigo set de filmagem onde vários faroestes foram produzidos e onde Cliff descobre que dezenas de hippies estão morando em condições estranhas e suspeitas. É fácil perceber que a grande maioria deles são mulheres, com a identificação de apenas três homens (um deles, Charlie, sendo apenas mencionado).
Recebem destaque duas mulheres desse núcleo: Squeaky (Dakota Fanning), que é apresentada como líder do grupo, demonstrando suspeita e protecionismo quando Cliff se aproxima. Durante toda a cena há um clima crescente de tensão, deixando a impressão de que ela pode ser perigosa e criminosa, havendo fortes indícios de estelionato. E Pussycat (Sarah Margaret Qualley), uma jovem desconhecida com quem Cliff flerta de vez em quando na rua e para quem dá carona até o rancho. Ela surge na obra para levar o personagem de Brad Pitt até o local suspeito e apresentar ao espectador o núcleo da seita.
Pussycat protagoniza um momento muito incômodo do filme, em que um ângulo extremamente objetificador e desnecessário é escolhido para registrar uma conversa entre a personagem e Cliff. Em pé na rua, ela se apoia na janela do carro para falar com o motorista. A câmera a filma por trás, com foco em sua bunda em um short curtíssimo, e acompanha movimentos repetidos em que a personagem se inclina diversas vezes para a frente para conversar com Cliff. Apesar da personagem ser menor de idade (suspeita do protagonista), há uma clara intenção sexual na forma como ela é apresentada. Inclusive no jeito de ser chamada, ao ter o apelido de Pussycat “ironicamente” reduzido para Pussy.

Representatividade feminina na ficha técnica
Direção, Roteiro, Produção, Produção executiva, Direção de fotografia, Direção de arte, Figurino, Trilha sonora, Edição de som, Mixagem de som, Edição, Efeitos especiais e Maquiagem.
Tendo em vista as funções elencadas acima, restritas aos chefes de equipe, foram identificados nos créditos finais do filme 20 profissionais. Destes, 14 homens e apenas 6 mulheres. Era uma vez em Hollywood conta então com 30% de representatividade feminina em cargos-chave.
São elas: A produtora Shannon McIntosh; a produtora executiva Georgia Kacandes; a designer de produção Barbara Ling; a figurinista Arianne Phillips, a compositora Mary Ramos; e a maquiadora Heba Thorisdottir.
Representatividade feminina no elenco principal
Créditos iniciais
Com base nos créditos iniciais do longa, foram identificados 14 nomes em destaque no elenco. Deles, dez são homens e quatro mulheres. Elas então representam apenas 28,57% do elenco principal.
Essa porcentagem conta com Margot Robbie (Sharon), Margaret Qualley (Pussycat), Julia Butters (Marabella) e Dakota Fanning (Squeaky).
Bechdel-Wallace
As mulheres têm nome? Se falam? É sobre homem?
Aprovado.
Nenhuma conversa é muito longa ou significante, mas há pequenas interações.
Pussycat e Gipsy (amiga que também mora no rancho) conversam brevemente. Pussycat pergunta onde está todo mundo, inclusive as crianças, pois não as viu quando chegou de carro. Descobre pela amiga que a maioria das pessoas foi para Santa Bárbara.
No rancho de filmagens acontecem também passeios guiados pelos cânions de Santa Susana. Ao guiar um casal, Lulu, a guia, elogia Connie por sua montaria e a segunda explica que estava acostumada a andar a cavalo toda semana quando estava no Tennessee. As personagens aparecem apenas nessa situação e são completamente aleatórias no filme, mas têm nomes e trocam esse breve diálogo.
Squeaky ordena à Snake (outra moça hippie que vive com o grupo no rancho) que vá para a porta vigiar quem chegou no terreno e que a avise caso o desconhecido se aproxime da casa onde estão. Apesar de o desconhecido ser Cliff, a conversa não é especificamente sobre ele e sim sobre o risco de ter um intruso rondando o local e a necessidade de estarem alertas.
Por fim, Sharon recebe a visita de Joanna (outra personagem que aparece apenas para uma cena minúscula, mas que tem nome e fala) e elas conversam sobre a gravidez e o bebê que Sharon espera.

Mako-Mori
Tem mulher? Tem arco dramático? É apoiado no arco do homem?
Aprovado.
Apesar de ter potencial para ser uma ótima personagem, Marabella surge na trama apenas para impulsionar Rick a melhorar como ator. Ele está em uma crise profissional e claramente sente necessidade de provar a ela que é bom. Depois ela retorna ao filme para vê-lo triunfar e elogiá-lo, dando o reforço positivo que ele precisava.
Pussycat existe na trama apenas para conduzir Cliff (e o espectador) ao rancho, permitindo que alguns personagens e eventos futuros comecem a ser compreendidos. As demais moças da família Mason não têm arco dramático, existindo na obra apenas como um fator de mistério, gerando a desconfiança de que algo está acontecendo naquele local estranho. Infelizmente, não sabemos nada sobre elas, suas ações, origens, motivações, como sabemos sobre Rick e Cliff.
Sharon, apesar ter poucas falas, é a única personagem feminina que aparece do início ao fim do filme, sendo apresentada de forma completamente desvinculada de seu marido (que quase não aparece na obra). Sabemos um pouco sobre seu passado, que envolve o término com o ex noivo (e atual grande amigo) Jay Sebring e o casamento com Roman Polanski. A vemos constantemente com amigas, dançando, frequentando restaurantes, recebendo hóspedes em casa, conversando sobre o filho que nascerá em breve.
O filme contém também cenas dela sozinha, que permitem ao espectador compreender o quanto a personagem está desfrutando do atual momento na carreira, empolgada com o sucesso. Percebemos a animação ao ver um filme seu em cartaz, a tentativa de ser reconhecida pelos funcionários do cinema, a experiência de assistir ao filme no anonimato, se deliciando ao presenciar as reações do público a cada cena. A personagem é sempre apresentada através de uma atmosfera meiga, como uma espécie de homenagem a alguém que, na vida real, teve esse momento interrompido de forma tão brutal. Por tudo isso, compreende-se que, diferente das demais personagens femininas, Sharon possui um arco dramático independente.

Tauriel
Tem mulher? Ela só está na trama para ser par romântico/possui competência em algo?
Aprovado.
Como dito anteriormente, Sharon existe na trama de forma independente, não estando vinculada a alguma figura masculina. Ela é uma atriz em ascensão, vivendo sua vida e sua gravidez em Los Angeles no auge do sucesso. Então claramente possui competência.
Marabella não está (obviamente) na trama para ser par romântico de ninguém e, apesar de toda a sua participação ser vinculada ao personagem Rick Dalton, ela é apresentada como uma atriz competente e dedicada, que se entrega ao trabalho e deseja executá-lo da melhor forma possível.

Barnett
Tanto homens quanto mulheres falam entre si só sobre o sexo oposto? Os personagens masculinos têm comportamento atrelado à violência que trate como humor/falta de seriedade/normal/aceitável/como se alguém merecesse a violência?
Reprovado.
Tanto homens quanto mulheres conversam entre si sobre assuntos que não sejam o sexo oposto, porém, como característico dos filmes de Tarantino, há muita violência envolvida.
Um dos principais pontos do filme é o ataque dos membros da seita. Nessa ocasião, há violência explícita e chocante, em cenas sanguinolentas e macabras, que trazem um enorme desconforto. Há, inclusive, uma determinada personagem que demora muito a morrer, tornado-se uma espécie de caricatura grotesca em seus ferimentos extremos, dor prolongada e gritos histéricos. O filme assume um tom bizarro, onde talvez se pretenda cômico, com uma personagem que se comporta quase como um zumbi, difícil de matar apesar das diversas tentativas.
Ao comentar o crime posteriormente, os vizinhos discutem os detalhes, como por exemplo o uso de um lança chamas que foi objeto de cena de um filme famoso. E sorriem entusiasmados, como se fosse uma curiosidade “maneira” da história, e não um detalhe horrendo de um evento trágico.
Para além desse momento de violência tão explícita, existem alguns outros fatores que fazem com que o filme reprove no teste de Barnett. Existe um boato em Hollywood de que Cliff assassinou a esposa. Essa teoria não é comprovada nem negada pelo personagem, que se limita a ficar calado quando ouve algo a respeito, deixando uma aura de mistério em torno da questão.
Em determinada cena do passado, vemos sua esposa reclamando sem parar, enquanto eles fazem uma viagem de barco e ele está armado com uma espécie de arpão de pesca. Pelo ângulo do objeto e pela cena se limitar a esses fatos, é possível inferir que a intenção do diretor é provocar a suspeita no espectador de que o assassinato aconteceu naquele momento, para que ela parasse de reclamar. Cabe destacar que isso não foi mostrado nem confirmado no filme, deixando em aberto o que realmente aconteceu para que cada um interprete como quiser. Mas claramente a possibilidade de que o assassinato tenha sido real e que tenha tido motivação tão banal foi construída no filme.
Além disso, Cliff protagoniza outras duas cenas que são relevantes para a análise deste teste. Em determinado momento ele assiste a uma aula de Bruce Lee e zomba dele, sendo então convidado para um duelo. Cliff acha a situação muito engraçada, mesmo quando bate no oponente e o joga em um carro, amassando toda a lataria. Aquilo para ele é uma brincadeira, um entretenimento em um dia qualquer.

Em outra cena, ele visita o rancho onde vive a família Mason e um jovem fura o pneu do carro que ele usaria para ir embora. Para obrigá-lo a trocar o pneu, Cliff dá uma surra nele na frente de seus amigos. Não parece ver problema nenhum na situação, tratando tudo com muita normalidade.
Enquanto isso, Rick cuida de sua carreira, gravando diversos programas violentos, com muitas cenas de ação e assassinato. Às vezes, com dezenas de mortes em cada programa gravado. Tudo aquilo é consumido compulsivamente pela audiência, que ama o estilo e a violência retratada. Al Pacino, inclusive, elogia o trabalho de Rick e diz que adora filmes com muitas mortes, o que mostra a banalização da violência e seu uso como um atrativo no universo do cinema (o que, sabemos, não é diferente da vida real).
Ao esquecer as falas durante a gravação, Rick se tranca no set e quebra diversos objetos, jogando vidros na parede e conversando sozinho de forma grosseira, chegando a se ameaçar com a possibilidade de suicídio.
Assim, é possível perceber que o filme conta com diversas cenas de violência atreladas aos personagens masculinos, indo muito além do crime que originou o longa. Essas cenas surgem como parte do dia a dia dos personagens, mostrando a forma banal e normalizada com que eles as interpretam.

Resumo dos testes de representação e representatividade
Representatividade feminina na ficha técnica | 30% |
Representatividade feminina no elenco principal | 28,57% |
Bechdel-Wallace | Aprovado |
Mako-Mori | Aprovado |
Tauriel | Aprovado |
Barnett | Reprovado |
Uma resposta em “Elas no Oscar 2020: Era uma vez em Hollywood | Testes de representação e representatividade”
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