Pelo segundo ano consecutivo, um filme brasileiro recebe múltiplas indicações ao Oscar. Dessa vez, é O Agente Secreto, filme escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho. A obra concorre a quatro prêmios na edição de 2026 do Oscar: Filme, Filme Internacional, Ator (Wagner Moura) e Elenco.
É a sexta vez que um filme brasileiro concorre a categoria de Melhor Filme Internacional e a primeira vez que um ator brasileiro é indicado à categoria de Melhor Ator. O filme também concorre ao novo prêmio, de Melhor Elenco, com a direção de elenco Gabriel Domingues.

Outra curiosidade: embora seja a primeira indicação de um filme de Kleber Mendonça Filho ao Oscar, é a terceira vez que uma obra do diretor é escolhida para representar o Brasil na premiação. As anteriores foram O Som ao Redor (2013) e Retratos Fantasmas (2023), que acabaram não sendo indicados
O Agente Secreto vem colecionando prêmios e indicações desde a sua estreia no Festival de Cinema de Cannes, em que concorreu à Palma de Ouro e venceu nas categorias de Melhor Ator e Melhor Diretor. No Globo de Ouro, o filme foi indicado em três categorias, arrematando os prêmios de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Ator em Drama.A seguir, vamos analisar O Agente Secreto com o nosso Teste Arte Aberta! Para saber mais sobre o teste, confira o texto introdutório.

Sinopse
De acordo com a percepção do Arte Aberta evitando spoilers
O filme se passa durante a ditadura militar no Brasil, mais especificamente em Recife, no ano de 1977. Acompanhamos Marcelo (Wagner Moura), um homem misterioso cujo passado vamos entendendo aos poucos. Compreendemos logo no início que Marcelo corre perigo e precisa se esconder. O personagem encontra refúgio na casa de Dona Sebastiana (Tânia Maria), uma senhora idosa carismática e divertida que abriga também outras pessoas que estão sendo perseguidas, por uma razão ou por outra. O objetivo de Marcelo é se reunir com o filho Fernando (Enzo Nunes) e, em algum momento, fugir do país com ele.
No estilo já conhecido de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto mistura suspense, drama e ação com momentos absurdos e engraçadíssimos, cenas genuínas de afeto e de muita cinefilia.

Ótica de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
O Agente Secreto é um filme centrado em seu protagonista, Marcelo, um homem branco e heterossexual. Os outros personagens giram em torno dele, mas apresentam uma diversidade genuinamente brasileira.
Dentre as mulheres, destaca-se Dona Sebastiana, senhora idosa que oferece refúgio àqueles que precisam se esconder. A personagem brilha, demandando a atenção do espectador, sempre que surge na tela, com seu carisma que mistura humor, afetividade e um pouco de mistério. Dona Sebastiana é a aparente proprietária do Edifício Ofir e, além de manter as coisas em ordem por lá, também ajuda os moradores como pode. Ela viveu na Itália por sete anos, foi anarquista e depois comunista (ou será que foi o contrário?).

Dentre os moradores do Edifício Ofir, estão Cláudia (Hermila Guedes), de quem não sabemos muito, apenas que é professora e dentista e que tem uma filha; e Thereza Vitória (Isabél Zuaa), mulher negra e imigrante de Angola. As duas são mais parte do cenário que circunda Marcelo do que personagens complexos.

Elza (Maria Fernanda Cândido) aparece pouco, mas projeta uma certa imponência como representante de um grupo que ajuda vítimas de perseguição, como Marcelo. Outra personagem mulher que merece destaque é Fátima (Alice Carvalho), esposa de Marcelo. Professora, ela aparece em uma única cena, mas mostra potência, sendo uma mulher que não tem medo de dizer o que pensa.

Por fim, há Flávia (Laura Lufési), uma jovem mulher negra, técnica de uma universidade particular cujo trabalho, nos dias de hoje, envolve transcrever fitas dos anos 70. De certa forma, ela é uma espectadora, como nós. Flávia é curiosa e fica fascinada com o caso de Marcelo querendo descobrir mais sobre a história do personagem. De certa forma, ela quer dar uma conclusão “mais redonda” ao caso.
Apesar da diversidade de mulheres, de idades diferentes e com histórias diversas, e da maioria delas ter presença profissional (inclusive Dona Sebastiana, ao administrar o Edifício Ofir), elas são bastante secundárias à história do nosso protagonista. Notamos que todas têm suas próprias vidas, as quais espiamos em algumas curtas cenas, mas, ao fim e ao cabo, todas orbitam narrativamente a história de Marcelo.
O mesmo ocorre com os personagens não brancos do filme. Já mencionamos Flávia e Thereza Vitória ao tratarmos das mulheres. Além delas, vale destacar o personagem Seu Alexandre (Carlos Francisco), o sogro de Marcelo. Seu Alexandre é projecionista, um homem simples e avô dedicado. Ele dá apoio e suporte tanto para Marcelo quanto para Fernando. Também vale destacar Vilmar (Kaiony Venâncio), assassino de aluguel impiedoso subcontratado por um outro par de assassinos (brancos).
Quanto à diversidade LGBTQIA+, há um único personagem no filme, Clóvis (Robson Andrade), um menino que fugiu de casa por que o pai e o tio queriam que ele fosse “homem”, nas palavras de Dona Sebastiana, “do jeito deles”. Clóvis mora no Edifício Ofir e ajuda com as tarefas domésticas. Porém, ele não vai à escola, fato destacado por Marcelo que o estimula a frequentar.
Não há personagens com deficiência (PcD) no filme.

Representatividade de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
Direção e Roteiro*
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
A direção e o roteiro do filme é de Kleber Mendonça Filho, um homem branco. Não há informações se ele é LGBTQIA+ e/ou PcD.
Dessa forma, a ficha técnica principal (direção e roteiro) é composta 0% por pessoas não brancas, 0% por mulheres, 0% PcD e 0% LGBTQIA+.

Elenco principal*
Créditos iniciais/finais
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
Os créditos finais do filme apresentam 35 nomes em cartelas. Devido a grande quantidade de atores, optei por não transcrever toda a lista aqui. Do total, 12 são mulheres, 17 são não brancos e 2 são LGBTQIA+.
Dessa forma, o elenco é composto por 34,3% de mulheres, 48,6% de não brancos, 5,7% LGBTQIA+ e 0% de PcD.

Representação
Mulheres
Presença (Bechdel-Wallace)
As mulheres têm nome? Se falam por mais de 60 segundos? Sobre outro assunto que não seja homens?
Aprovado.
Passa raspando. Todas as conversas entre personagens mulheres são bem curtas, nenhuma ultrapassando os 30 segundos. Geralmente são comentários simples como Thereza Vitória pedindo para Dona Sebastiana baixar o som de uma festa ou Cláudia cumprimentando a filha, Débora, e pedindo para a empregada, Joana, buscar a feira.
Os maiores diálogos são os de Flávia com a sua colega de trabalho, Dani. Elas discutem as fitas que estão ouvindo. Somando todos os trechos de conversa, totaliza pouco mais de 60 segundos.

Arco Dramático (Mako-Mori)
Tem mulher? Tem arco dramático próprio? O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de gênero?
Reprovado.
A personagem que passa mais perto de ter algum tipo de arco dramático é Flávia, que fica absorta pelo conteúdo das fitas que está transcrevendo no seu trabalho e resolve investigá-las mais a fundo. Ainda assim, o seu papel é mais de espectadora do que de dona da própria história e no final ela não consegue encontrar respostas para as suas perguntas.

Competência (Tauriel)
Houve mulher(es) com atividade profissional definida? Ela é competente na atividade?
Grau da Competência Caso a mulher seja competente, quão competentes elas são em sua atividade profissional (1 a 5 , sendo 1 – pouco competente e 5 – muito competente)
Houve reconhecimento dessa competência?
Aprovado.
Nota: 3
Há muitas mulheres com atividade profissional definida. Cláudia é dentista e professora, mas não vemos ela de fato trabalhando. Fátima era também professora. Flávia e Dani são técnicas de uma faculdade. Até a Dona Sebastiana pode ser considerada uma espécie de síndica do Edifício Ofir e Elza trabalha ajudando pessoas que estão sendo perseguidas (nesses dois últimos casos, não aparentam ser atividades remuneradas).
No entanto, é desafiador classificar a competência dessas mulheres, pois elas mal são vistas trabalhando. Flávia talvez seja a mais fácil de avaliar, por ter uma atividade remunerada e ser retratada em boa parte das suas cenas no trabalho. Nota-se que ela é focada, comprometida e muito curiosa. Ela vai além do que seria exigido pelo trabalho, pesquisando sobre o caso de Marcelo mesmo depois do projeto ser encerrado.
Dona Sebastiana, se vista como “síndica”, também é competente, sempre tentando garantir que os moradores do Edifício Ofir vivam nas melhores condições possíveis.

Qualidade da representação – mulheres
Como é a representação das personagens mulheres (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos; 0, não tem; 1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos; 2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos; 3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 2
As personagens mulheres são diversas e interessantes, mas a suas participações são bastante reduzidas. Há Fátima, a esposa; Dona Sebastiana, a senhora idosa que cuida de todos à sua maneira; Elza, mulher misteriosa de quem não sabemos muito; Cláudia que tem uma filha e, assim como os outros moradores do Edifício Ofir, precisa se esconder.
Flávia apresenta um pouco mais de complexidade, sendo retratada como uma mulher periférica, mãe e esposa, trabalhadora, curiosa (a ponto de ser “danada” nas palavras de Fernando) e perspicaz.

Raça
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem não branco? Tem arco dramático próprio? O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de raça?
Reprovado.
Os personagens não brancos não possuem arco dramático. A personagem que tem uma história mais definida é Flávia, conforme já destacado na seção referente à representação de gênero. Seu Francisco também é um personagem interessante, mas seu papel é de dar suporte ao protagonista, Marcelo.
Qualidade da representação – raça
Como é a representação dos personagens não brancos (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos; 0, não tem; 1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos; 2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos; 3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 2
Há muitos personagens negros, mas, em sua maioria, eles aparecem em cenas curtas e têm pouca importância na trama. Fátima é a esposa de Marcelo e a sua presença é sentida em todo o filme, mas ela só aparece fisicamente em uma única cena. Seu Alexandre é o típico homem simples e trabalhador, além de um avô dedicado. Vilmar é um assassino de aluguel brutal. Flávia, assim como o seu destaque entre as mulheres, apresenta um pouco mais de complexidade.

LGBTQIA+
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem LGBTQIA+? Tem arco dramático próprio? O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de LGBTQIA+?
Reprovado.
O único personagem LGBTQIA+ é Clóvis, que tem uma participação muito pequena.
Qualidade da representação – LGBTQIA+
Como é a representação das personagens LGBTQIA+ (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos; 0, não tem; 1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos; 2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos; 3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 1
Clóvis aparece pouco, então não sabemos muito sobre ele.
PcD
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem PcD? Tem arco dramático próprio? O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de PcD?
Reprovado.
Não há personagens PcD no filme.
Qualidade da representação – PcD
Como é a representação das personagens PcD (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos; 0, não tem; 1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos; 2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos; 3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 0
Não há personagens PcD no filme.

Resumo do Teste Arte Aberta

Representatividade


Representação



Estrelas Arte Aberta: 1

