O filme Sonhos de trem, do diretor e roteirista Clint Bentley, foi indicado em quatro categorias no Oscar 2026: Filme, Roteiro Adaptado, Canção Original e Fotografia (para o brasileiro Adolpho Veloso). A obra é baseada no livro de mesmo nome de Denis Johnson.

Contemplativo e com ritmo lento, de forma geral o filme foca não em grandes acontecimentos, mas no simples passar da vida do protagonista. Com especial destaque para eventos simples e para os encontros que ele tem com pessoas diferentes ao longo de sua trajetória. O filme aborda como cada um desses encontros e eventos têm o potencial de marcar o personagem, de moldar a forma como ele vê o mundo e de começar a tentar compreender o seu lugar como parte do todo.
Esse tom poético e introspectivo do filme é composto pela bela fotografia do brasileiro Adolpho Veloso, com lindas paisagens e jogos naturais de luz. O profissional é o primeiro brasileiro nato indicado ao Oscar na categoria de Melhor Fotografia. E já foi premiado no Critics Choice Awards pelo mesmo filme.
A seguir, analisamos o filme Sonhos de trem com o nosso Teste Arte Aberta. Para saber mais sobre o teste, confira o texto introdutório.

Sinopse
De acordo com a percepção do Arte Aberta evitando spoilers
O filme acompanha a vida de Robert Grainier, um homem solitário que trabalha com extração de madeira no projeto de expansão ferroviária dos EUA. Ao longo dos anos, ele conhece algumas pessoas que marcam sua trajetória e tenta compreender como se relaciona e se conecta com o mundo a sua volta. Ao lidar com acontecimentos dolorosos, ele precisa encarar a culpa, a solidão e a sensação de estar enlouquecendo. Ao mesmo tempo em que sente que sua vida está estagnada, o personagem acompanha o país mudando e se modernizando diante de seus olhos.

Ótica de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
O filme é centrado no protagonista, Robert Grainier, um homem branco hétero. Os outros personagens giram ao seu redor, servindo basicamente para moldar como ele se sente e como compreende o mundo.
A personagem feminina de maior destaque é Gladys Olding, esposa de Robert. Ela é uma mulher forte, independente e decidida. Sua primeira aparição na obra já deixa isso em evidência. “Gladys se apresentou como se mulheres fizessem isso sempre”, afirma a voz em off do protagonista. Ao conhecer e se interessar por Robert, ela não espera que ele tome alguma atitude. Gladys sabe o que quer, se aproxima, se apresenta e em pouco tempo já estão construindo uma vida juntos.
Enquanto Robert se ausenta em longas viagens de trabalho, Gladys cuida do terreno, caça, pesca, cultiva a terra e cuida da filha. Ela busca soluções para o casal ficar junto e se oferece para acompanhá-lo nas viagens, mesmo sabendo que são ambientes perigosos e que teria que enfrentar condições muito adversas. Gladys toma decisões, busca soluções e atua de forma ativa em tudo.
Infelizmente, a personagem não tem arco dramático próprio e tem um fim trágico, o que ocorre unicamente para moldar o arco de Robert. Gladys é uma personagem forte que poderia ter sido desenvolvida na obra de forma independente, mas que surge na narrativa apenas para desencadear sentimentos em Robert Grainier. Primeiro, apresentando a ele felicidade e pertencimento (após uma juventude de orfandade e solidão). Depois, com a sua ausência, tornando-o taciturno e ainda mais solitário.
A filha do casal chama-se Katie e é um bebê. Ela também surge na narrativa apenas para compor a ideia de felicidade e família, que, ao ser perdida, leva o protagonista ao isolamento e à depressão.

Após eventos traumáticos, Robert começa a trabalhar transportando os moradores das redondezas em uma carroça. Assim, conhece Claire, a única outra mulher de destaque no filme. Ela é inteligente, gentil e empática. Em sua posição de viúva, demonstra compreender o que Robert está passando, o que faz com que ele se abra um pouco com ela. Os dois têm algumas poucas conversas em que refletem sobre a vida e a relação com a natureza. Sua presença serve para atenuar um pouco o isolamento de Robert.
Da mesma forma, existe na obra um personagem chamado Ignatius Jack, um homem indígena que trabalha em um armazém e é sempre gentil com o protagonista. Inicialmente, eles trocam apenas algumas palavras quando se encontram na cidade. Mas, ao longo dos anos e das perdas de Robert, Ignatius torna-se o mais próximo que ele tem de um amigo. O personagem o visita, leva comida, os dois conversam e Ignatius ajuda a reconstruir sua casa após o incêndio no qual perdeu sua família. Ainda assim, Ignatius não tem uma história própria.
Gladys, Katie, Claire, Ignatius e alguns outros personagens que Robert conhece em suas viagens de trabalho surgem na obra apenas para aplacar um pouco a solidão do protagonista. A intenção é mostrar que ao longo dos anos algumas pessoas passaram por sua vida e, em maior ou menor medida, marcaram sua trajetória e lhe ensinaram algo.
Apesar de personagens femininas inteligentes e fortes, que a despeito disso não têm espaço próprio na narrativa, o filme não aborda questões de gênero. Fala, no entanto, recorrentemente sobre questões raciais.
Robert vive o início do século XX e acompanha as mudanças nos Estados Unidos ao longo de décadas. Devido ao seu trabalho, o personagem acompanha especialmente a expansão ferroviária e a extração de madeira em áreas rurais. Nesse contexto, ele presencia muita violência.
Ainda criança, assistiu à deportação em massa de famílias chinesas e ficou perplexo com a naturalização da violência. Já adulto, trabalhou com homens de Xangai e Chattanooga. Ele diz que os vê como sua família temporária quando trabalha por meses longe da esposa e da filha. Mas, ao longo dos anos, viu alguns desses colegas serem assassinados sem nem saber o motivo e não interviu.
Uma dessas situações o marca profundamente. Ao presenciar o assassinato de um colega asiático, Robert fica incomodado, mas não impede. Ao longo dos anos que se seguem, ele continua vendo o homem em pesadelos e visões. Não consegue se desvencilhar de sua lembrança e acredita que as tragédias que ocorrem em sua vida podem ser vingança ou culpa por não ter tentado salvá-lo. Apesar de marcar a trajetória do protagonista, o personagem assassinado não tem nem mesmo nome no filme.
Em outro momento, um rapaz negro, também sem nome, mata um dos colegas de trabalho do protagonista para se vingar pelo assassinato de seu irmão, anos antes, por motivo de racismo.
Robert presencia muitos casos de violência e preconceito racial ao longo dos anos. Nunca se envolve e nem tenta impedir, mas fica marcado por esses eventos.
No filme, não há representação de pessoas LGBTQIA+ ou PcD.
Representatividade de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
Direção e Roteiro*
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
A direção do filme é de Clint Bentley e o roteiro é uma parceria entre ele e Greg Qwedar. Ambos são homens brancos e não foram encontradas informações sobre eles serem LGBTQIA+ e/ou PcD.Dessa forma, a ficha técnica principal (direção e roteiro) é composta 0% por pessoas não brancas, 0% por mulheres, 0% PcD e 0% LGBTQIA+.

Elenco principal*
Créditos iniciais/finais
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
Constam nos créditos finais do filme nove nomes: Joel Edgerton, Felicity Jones, Nathaniel Arcand, Clifton Collins Jr., John Diehl, Paul Schneider, Kerry Condon, William H. Macy e William Patton.
Assim, temos duas mulheres brancas (Felicity Jones e Kerry Condon), um homem indígena (Nathaniel Arcand) e seis homens brancos. Vale destacar que Clifton Collins Jr., apesar de ser um homem branco (e logo não ser contabilizado em nosso teste), tem ascendência mexicana. Por ser um filme estadunidense, vale ressaltar o ator latino. Não encontramos nada na internet sobre o elenco ser LGBTQIA+ e PcD.
Dessa forma, o elenco é composto por 22,2% de mulheres, 11,1% de não brancos, 0% de LGBTQIA+ e 0% de PcD.

Representação
Mulheres
Presença (Bechdel-Wallace)
As mulheres têm nome?
Se falam por mais de 60 segundos?
Sobre outro assunto que não seja homens?
Reprovado.
Existem três personagens mulheres com nomes: Gladys, Katie e Claire. Esta última não contracena com as demais. Já Gladys e Katie são mãe e filha e têm algumas cenas juntas. Mas Katie é ainda um bebê e produz apenas balbucios e poucas palavras, não havendo conversa entre as duas por mais de 60 segundos.

Arco Dramático (Mako-Mori)
Tem mulher?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de gênero?
Reprovado.
Tanto Gladys quanto Claire são mulheres independentes e interessantes, mas nenhuma delas tem um arco dramático próprio. Gladys é a esposa do protagonista e existe na história como uma espécie de “marco da felicidade” dele.
Na primeira parte da obra, Robert anseia por voltar para a sua companhia e é ao lado dela e da filha que ele é verdadeiramente feliz. Com a sua perda, inicia-se uma fase de solidão e desespero para Robert. Apesar de ser uma personagem forte, Gladys não tem uma história própria e sua presença (e ausência) no filme é basicamente para demarcar a felicidade e a tristeza do protagonista.
Claire proporciona algumas poucas falas interessantes, demonstrando ser uma mulher inteligente, com boas reflexões sobre a vida e a relação do homem com a natureza. No entanto, também não tem história própria e pouco sabemos sobre ela. Claire existe na obra para proporcionar companhia a Robert em sua fase de luto e para que ele se sinta compreendido, uma vez que Claire é viúva e se identifica com seus sentimentos.

Competência (Tauriel)
Houve mulher(es) com atividade profissional definida?
Ela é competente na atividade?
Grau da Competência Caso a mulher seja competente, quão competentes elas são em sua atividade profissional (1 a 5 , sendo 1 – pouco competente e 5 – muito competente)
Houve reconhecimento dessa competência?
Nota: 3
Gladys trabalha em seu terreno, caça, pesca, lava, e é muito eficiente nisso tudo, mas essas atividades são para subsistência da família e não um emprego. Ela sugere acompanhar o marido em suas viagens de trabalho e lavar roupa para ganhar dinheiro, mas isso não chega a acontecer.
Já Claire trabalhou como enfermeira na Grande Guerra e agora trabalha no Serviço Florestal dos EUA para gerenciar a extração de madeira e evitar incêndios. Apesar de não haver uma cena de alguém reconhecendo sua competência profissional em algum desses empregos, ela cita a carta de recomendação escrita por um amigo da família que usou para conseguir o trabalho. Nela, o autor diz que Claire é desprovida de timidez, é ética e não tem medo de nada. Não é reconhecimento pelo trabalho propriamente dito, mas é o reconhecimento de características que a tornam boa para o trabalho (por isso foram usadas em uma carta de recomendação).

Qualidade da representação – mulheres
Como é a representação das personagens mulheres (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 2.
Como já discorrido anteriormente, as mulheres da obra são interessantes, mas são todas personagens de apoio ou secundárias. Não são marcadas por muitos estereótipos, mas também não têm espaço ou história própria.

Raça
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem não branco?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de raça?
Reprovado.
O filme tem apenas dois personagens não brancos com algum destaque. O primeiro deles é o colega asiático que trabalha na expansão da ferrovia com Robert e é morto diante de seus olhos. O personagem não tem nome na obra e não sabemos nada sobre ele, nem mesmo o motivo de seu assassinato. Robert fica impressionado com essa violência e passa a ver o colega em pesadelos e visões. Mas se trata mais de um incômodo do protagonista com a naturalização da violência e com a própria passividade do que de fato espaço na obra para o personagem. Afinal, o espectador não sabe seu nome, sua história ou qualquer detalhe seu. Ele não é desenvolvido em nenhuma camada e sua presença na obra nos conta apenas sobre Robert Grainier.
Da mesma forma, existe na trama Ignatius Jack, um vizinho indígena que se aproxima gentilmente do protagonista durante seu luto. Ele tem nome, fala e algum tempo de tela (embora pouco), mas não tem arco dramático próprio nem é desenvolvido ao longo da história.
Qualidade da representação – raça
Como é a representação dos personagens não brancos (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 2
Enquanto o colega de trabalho sem nome é um personagem de apoio, Ignatius Jack é um personagem secundário com poucos estereótipos.
LGBTQIA+
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem LGBTQIA+?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de LGBTQIA+?
Reprovado.
Não há representação LGBTQIA+ no filme.
Qualidade da representação – LGBTQIA+
Como é a representação das personagens LGBTQIA+ (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 0
Não há representação LGBTQIA+ no filme.
PcD
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem PcD? Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de PcD?
Reprovado.
Não há representação PcD no filme.
Qualidade da representação – PcD
Como é a representação das personagens PcD (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 0
Não há representação PcD no filme.
Resumo do Teste Arte Aberta

Representatividade


Representação



Estrelas Arte Aberta: 1

