As mulheres no Oscar 2019: testes de representação e representatividade

No dia 24 de fevereiro de 2019 serão anunciados os vencedores da 91ª cerimônia de premiação do Oscar. A categoria de Melhor Filme este ano recebeu oito indicados, todos dirigidos por homens: Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer; Infiltrado na Klan, de Spike Lee; A favorita, de Yorgos Lanthimos; Pantera Negra, de Ryan Coogler; Green Book: O guia, de Peter Farrelly; Roma, de Alfonso Cuarón; Nasce uma estrela, de Bradley Cooper; e Vice, de Adam McKay.

natalie portman
Mais uma vez – todos os diretores indicados para Melhor Filme e Melhor Direção são todos homens

Vamos analisar todos esses 8 filmes em testes que apontam para a representação (como se apresentam nas narrativas) e representatividade (as funções que assumem por trás das câmeras) das mulheres nas obras!

O que entendemos sobre representação e representatividade?

Representação seria como as mulheres são apresentadas, retratadas nos filmes. Há reafirmação ou quebra de estereótipos? Há rivalidade feminina ou sororidade? Como são apresentadas as suas sexualidades e identidades de gênero? Há diversidade – de raça, de etnia, de interesses, de vontades?

Quando falamos sobre representação, é impossível não trazer à tona também a questão da representatividade. Quem está por trás – definindo o olhar – desses filmes? Sabemos que há uma relação desse “lugar de fala” de quem dirige, escreve, “lidera” essas funções chave no audiovisual e a representação das mulheres. É, ainda, uma questão de mercado, de estímulo e de desenvolvimento da mulher que atua na indústria cinematográfica.

A análise

Ano passado demos início ao especial #ElasNoOscar, no qual analisamos os filmes com base em testes de representatividade, lembre aqui como foi. Este ano vamos repetir a experiência, analisando os oito longas indicados na categoria Melhor Filme da 91ª cerimônia de premiação do Oscar, que são:

  1. Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer;
  2. Infiltrado na Klan, de Spike Lee;
  3. A favorita, de Yorgos Lanthimos;
  4. Pantera Negra, de Ryan Coogler;
  5. Green Book: O guia, de Peter Farrelly;
  6. Roma, de Alfonso Cuarón;
  7. Nasce uma estrela, de Bradley Cooper; e
  8. Vice, de Adam McKay.

Como eles se sairão? Acompanhe com a gente!

Conheça os pontos que vamos analisar:

  1. Sinopse geral do filme de acordo com a percepção do Arte Aberta, evitando spoilers;
  2. A ótica das mulheres;
  3. Representatividade feminina na ficha técnica (Direção, Roteiro, Produção, Produção Executiva, Direção de Fotografia, Design de Produção, Figurino, Trilha Sonora, Edição de som, Mixagem de Som, Edição, Efeitos Especiais e Maquiagem);
  4. Representatividade feminina no elenco principal (créditos iniciais/finais);
  5. Testes de representação:

Bechdel-Wallace:  

Há pelos menos duas mulheres com nome? Elas se falam? É sobre homem?

Devido à percepção de falta de representação das mulheres nas telas foi criado o Teste Bechdel-Wallace, originado da tirinha de quadrinhos The rule, escrita por Alison Bechdel, em 1985, a partir de uma ideia de sua amiga Liz Wallace, que faz parte da série Dykes to watch out for (DTWOF) da autora. Já falamos deste teste aqui!

The-Rule-cleaned-up

A partir desse conceito foi criado um site (https://bechdeltest.com/) em que as pessoas, de forma colaborativa, classificam o filme a partir das perguntas norteadoras do teste, criando uma imensa base de dados sobre a representação das mulheres no cinema. O teste faz as seguintes perguntas: Existem ao menos duas mulheres no filme, e elas têm nomes? Elas conversam entre si? Elas conversam entre si sobre algo que não seja sobre um homem?

Mako-Mori:

Tem mulher? Tem arco dramático próprio? O arco dramático é apoiado na narrativa do homem?

O Teste Mako Mori visa medir a participação das mulheres no enredo. Para que o filme passe, é preciso ter, pelo menos, uma personagem feminina; ela deve possuir arco dramático; e, por último, esse arco não deve ser apoiado no arco de um homem.

Tauriel:

Tem mulher? Ela está na trama apenas para ser par romântico ou possui competência/habilidade em algo?

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O Teste Tauriel tem como objetivo entender a participação da mulher na trama, se ela está a serviço do homem como par romântico, ou se ela é competente em algo.

Para que um filme passe, ele deve responder positivamente os questionamentos: Existe personagem mulher? As personagens mulheres existiriam se fossem homens? Ou, em outras palavras, elas existem só para serem pares românticos de personagens homens, ou são realmente competentes e boas no que fazem?

Barnett:

Tanto homens quanto mulheres falam entre si só sobre o sexo oposto? Os personagens masculinos têm comportamento atrelado à violência e esta é tratada com humor/falta de seriedade/normal/aceitável? Como se alguém merecesse violência?

O Teste Barnett, o mais diferente entre os que selecionamos, analisa também a ótica masculina, na tentativa de desmistificar o estereótipo do gênero masculino ligado à violência. As perguntas são: O filme possui pelo menos duas mulheres e dois homens e o assunto do diálogo entre eles vai além de falar sobre o sexo oposto? Se há alguma violência, ela é retratada com humor ou falta de seriedade; ou como normal ou aceitável; ou ainda como se alguém merecesse a violência? Nesta segunda regra, para que o filme passe é necessário que a resposta seja negativa, o que demonstra que o filme não utiliza a violência de forma gratuita, sem a contextualização na narrativa.

Elas no Oscar

Apesar de não ter havido indicação de filmes dirigidos por mulheres, o prêmio de Melhor Filme, de fato, é entregue aos produtores de cada obra, e, nesse caso, temos: Ceci Dempsey e Lee Magiday, em A favorita; Dede Gardner, em Vice; Gabriela Rodríguez, em Roma; e Lynette Howell Taylor, em Nasce uma Estrela.

Na categoria Melhor Direção também foram indicados somente homens: Spike Lee (Infiltrado na Klan), Yorgos Lanthimos (A favorita), Alfonso Cuarón (Roma), Adam McKay (Vice) e o polonês Paweł Pawlikowski (Guerra Fria).

A ausência de indicações de mulheres se repete nas categorias Fotografia, Direção de Arte, Edição, Trilha Sonora e Efeitos Visuais.

Os campeões de indicações neste ano são Roma e A favorita, cada um concorrendo a 10 prêmios, incluindo Filme, Roteiro Original, Diretor e Atrizes. Na categoria Melhor Atriz Principal, Yalitza Aparicio, por Roma, quebra o jejum de 14 anos sem latinoamericanas indicadas na categoria. Ela e Olivia Colman, de A favorita, concorrem juntamente com Lady Gaga, por Nasce Uma Estrela; Glenn Close, por A Esposa; e Melissa McCarthy, por Poderia Me Perdoar?.

 

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Yalitza Aparicio, que concorre na categoria Atriz Principal por Roma

Nasce uma estrela tem nove indicações, incluindo Filme, Roteiro Adaptado e duas indicações para Lady Gaga (Canção Original e Atriz Principal); Vice tem oito, incluindo Filme, Diretor e Ator Principal; e Bohemian Rhapsody e Green Book – O guia receberam cinco indicações cada. O primeiro homem e O retorno de Mary Poppins aparecem em quatro categorias, todas técnicas.

Na categoria Atriz Coadjuvante concorrem: Marina de Tavira, por Roma; Amy Adams, por Vice; Regina King, por Se a rua Beale falasse, e Emma Stone e Rachel Weisz, as duas indicadas por A favorita.

Rompendo culturalmente o muro que divide México e Estados Unidos, o longa mexicano Roma (primeira indicação a Melhor Filme da Netflix) ganhou destaque por ser um dos filmes de língua não inglesa com mais indicações na história da premiação, empatando somente com o chinês O Tigre e o Dragão (2010).

Na categoria Filme de Língua Estrangeira, além de Roma e Guerra Fria, concorrem Nunca deixe de Lembrar, Assunto de Família e Cafarnaum, este último dirigido pela libanesa Nadine Labaki.

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Nadine Labaki, diretora de Cafarnaum

Em Roteiro Adaptado concorrem: Infiltrado na Klan, A balada de Buster Scruggs, Se a rua Beale falasse, Nasce uma estrela e Poderia me perdoar?. Este último é o único dos seis que conta com uma mulher como co-roteirista, Nicole Holofcener. Já em Roteiro Original, A favorita tem Deborah Davis como co-roteirista. Nesta categoria, também concorrem No coração da escuridão, Green Book – O guia, Roma e Vice.

Na categoria de Longa Animação concorrem: Ilha dos Cachorros, Mirai, WiFi Ralph – Quebrando a Internet, Homem-Aranha no Aranhaverso e Os Incríveis 2, que tem como produtora Nicole Paradis Grindle.

Em Design de Produção (antiga Direção de Arte), há destaque para a presença de algumas mulheres: Alice Felton e Fiona Crombie, em A favorita; Bárbara Enríquez, em Roma; Kathy Lucas, por O Primeiro Homem; e Hannah Beachler, em Pantera Negra, sendo a primeira mulher negra a concorrer nessa categoria. O Retorno de Mary Poppins, que também concorre, não apresenta mulheres nesta categoria.

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Hannah Beachler, Designer de Produção em Pantera Negra, sendo a primeira mulher negra a concorrer nessa categoria

A categoria Figurino é dominada por mulheres, com Alexandra Byrne, em Duas Rainhas; Mary Zophres, em A Balada de Buster Scruggs; Ruth Carter, em Pantera Negra; e Sandy Powell, duplamente indicada por A Favorita e O Retorno de Mary Poppins. O mesmo acontece em Cabelo e Maquiagem, com três filmes indicados: Duas Rainhas, com Jenny Shircore e Jessica Brooks; Vice, com Kate Biscoe e Patricia DeHaney; e Border, com Pamela Goldammer.

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Ruth E. Carter, que concorre por Figurino em Pantera Negra

Nas categorias técnicas de som, temos também representatividade de mulheres. Na Edição de Som com Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan, de O Primeiro Homem; e Nina Hartstone, de Bohemian Rhapsody. Na mixagem, Ai-Ling Lee e Mary H. Ellis, por O Primeiro Homem.

Em canção original temos Diane Warren, por I’ll Fight, do filme RBG; Gillian Welch, por When A Cowboy Trades His Spurs For Wings, do filme A Balada de Buster Scruggs; Lady Gaga, por Shallow, de Nasce uma Estrela; Solana Rowe, por All the Stars, de Pantera Negra; concorrendo também com The Place Where Lost Things Go, de O retorno de Mary Poppins.

Em documentário os prêmios são também entregues a produtores, e todos os filmes concorrentes possuem mulheres, são elas: Betsy West e Julie Cohen em RBG, Elizabeth Chai Vasarhelyi e Shannon Dill em Free Solo, Eva Kemme, em Of Fathers and Sons, Diane Quon em Minding the Gap, Joslyn Barnes e Su Kim em Hale County This Morning, This Evening.

Na categoria Curta-Metragem de Ficção, prêmio que é entregue para diretores e produtores, temos as seguintes mulheres: Marianne Farley e Marie-Hélène Panisset, em Marguerite; Jaime Ray Newman, em Skin; María del Puy Alvarado, em Mother; e  Maria Gracia Turgeon, em Fauve; concorrendo com Detainment.

Em Curta-Metragem de Animação, os destaques das mulheres são: Alison Snowden, em Animal Behaviour; Becky Neiman-Cobb e Domee Shi, em Bao; Louise Bagnall e Nuria González Blanco, em Fim de Tarde; concorrendo ainda com One Small Step e Weekends.

Em Curta Documentário, Melissa Berton e Rayka Zehtabchi em A Night at The Garden representam as mulheres, concorrendo com Black Sheep, End Game, Lifeboat e Period. End Of Sentence.

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