A favorita | Testes de representação e representatividade

Lado a lado com Roma, o filme A favorita bate recorde de indicações no Oscar 2019, concorrendo em 10 categorias: Melhor filme (para os produtores Ceci Dempsey, Ed Guiney, Lee Magiday e Yorgos Lanthimos), Atriz principal (Olivia Colman), Atriz coadjuvante (com as colegas Rachel Weisz e Emma Stone), Roteiro original (Deborah Davis e Tony McNamara), Direção (Yorgos Lanthimos), Direção de fotografia (Robbie Ryan), Edição (Yorgos Mavropsaridis), Figurino (Sandy Powell) e Design de produção (Fiona Crombie).

Esse é o terceiro filme em língua inglesa do diretor grego Yorgos Lanthimos e um dos únicos que ele próprio não escreveu. O longa conta a história real da rainha Anne da Inglaterra (1702-1714). Com elenco majoritariamente britânico, A favorita destaca-se especialmente pela atuação, com três atrizes concorrendo ao Oscar.

Sinopse geral do filme

De acordo com a percepção do Arte Aberta evitando spoilers

Na Inglaterra do século XVIII, a rainha Anne tem um curto, porém importante reinado, de 12 anos. Desestruturada por uma vida de doenças e tragédias, a monarca é facilmente manipulada por sua amiga de infância, amante e confidente, a Duquesa de Marlborough. Essa dinâmica é modificada com a chegada de Abigail, uma nova empregada do castelo, que vê nas fragilidades de Anne uma forma de ascender socialmente. As relações entre essas três mulheres, cada uma com suas intenções pessoais, afetam de forma irresponsável eventos importantes da Inglaterra.

A ótica das mulheres

Este é definitivamente um filme sobre mulheres. E que mulheres! Sarah Churchill (Duquesa de Marlborough) e Abigail Masham são extremamente inteligentes, astutas e determinadas. Infelizmente, todas essas qualidades são utilizadas em uma relação perversa de rivalidade, com ambas dispostas a chegar às últimas consequências na competição para ser a favorita da rainha.

Com estratégias diferentes, as duas aplicam sua influência sobre Anne e a Inglaterra fica praticamente em suas mãos durante alguns anos, com impacto no rumo de guerras, impostos e posições sociais.

Sarah tem uma forte convicção política, utilizando a proximidade com a rainha para influenciar suas decisões em favor do partido liberal Whig. Abigail, por sua vez, tende para o partido conservador e induz a monarca a apoiar os tories. Além disso, Abigail pretende manipular Anne para modificar sua situação social. Tendo sido uma dama da sociedade no passado, por causa de seu pai, a jovem perdeu dinheiro e posição, foi abusada e passou a trabalhar como empregada. Quando percebe que pode ter influência sobre a rainha, Abigail questiona os limites de sua moralidade e o que está disposta a fazer para melhorar de vida e sair do inferno em que se encontra.

Apesar de conter personagens femininas complexas e fortes, o filme foca em relações negativas de rivalidade e embate. Não apenas entre as confidentes da rainha, mas em todas as relações entre mulheres do filme. Logo que chega ao castelo, Abigail é ridicularizada e maltratada pelas outras criadas, que se divertem à sua custa. Em uma situação de perigo, Sarah ao invés de ser ajudada, é explorada por outra mulher. Com uma camada bem maleável de civilidade, a perversidade parece dominar todos os personagens. Nesse universo, não é possível verificar nem sombra de sororidade.

A única relação de afeto que parece existir, apesar de extremamente problemática, é entre Sarah e Anne. Para além de conveniente e proveitosa, parece existir afeição em algum nível. Diferentemente de Abigail, que se debruça em elogios e finge encantamento pela rainha, Sarah esbanja grosseria, com uma honestidade fria e que mostra não se importar em agradar Anne de maneira vazia. Sarah fala o que a rainha não deseja ouvir, sem verniz e sem delicadeza, o que gera nela uma carência por atenção elogiosa e abre a porta para Abigail seduzi-la. Apesar da agressividade, parece haver mais na relação entre a Duquesa de Marlborough e a rainha do que apenas dissimulação e exploração.

Enquanto é fácil gostar das implacáveis e astutas acompanhantes de Anne, demora para se acostumar com a rainha. Apresentada inicialmente como uma personagem de certa forma patética, infantilizada e caricatural, à medida que o filme avança, conhecemos um pouco de sua história triste e dos traumas que contribuíram para deixá-la fragilizada.

Além disso, apesar de facilmente manipulável, ela de certa forma manipula também. Ao perceber que é alvo de disputa entre Sarah e Abigail, Anne tira proveito da situação e desfruta das atenções, prazeres e mimos de ambas as partes.

Representatividade feminina na ficha técnica

Direção, Roteiro, Produção, Produção executiva, Direção de fotografia,  Design de produção, Figurino, Trilha sonora, Edição de som, Mixagem de som, Edição, Efeitos especiais e Maquiagem.

Dos cargos elencados acima, 17 são ocupados por homens e apenas oito por mulheres. São elas: as produtoras Ceci Dempsey e Lee Magiday (que podem receber a estatueta de Melhor Filme); as produtoras executivas Rose Garnett e Deborah Davis; esta última é também roteirista da obra e a única mulher que concorre em 2019 na categoria de Roteiro Original; a figurinista Sandy Powell, a designer de produção Fiona Crombie e a maquiadora Nadia Stacey.

Caso Deborah Davis vença, será a nona mulher na história do Oscar a receber esse prêmio. Já Sandy Powell pode se tornar a terceira figurinista viva a ganhar quatro Oscars, se igualando a Milena Canonero e Collen Atwood. Em 2019, ela tem duas chances de alcançar esse feito, pois está concorrendo tanto por A favorita quanto por O retorno de Mary Poppins.

Representatividade feminina no elenco principal

Créditos iniciais/finais

Considerando os créditos finais do filme, é possível contabilizar quatro atrizes e quatro atores, o que totaliza 50% de participação de mulheres no elenco principal. Dessa forma, apesar de ser completamente focado em um trio principal de personagens femininas, o longa apresenta participação igualitária entre homens e mulheres.

Bechdel-Wallace

As mulheres têm nome? Se falam? É sobre homem?

Aprovado. Como A favorita gira em torno de Sarah, Abigail e da rainha Anne, o filme passa com folga no teste de Bechdel, com inúmeras conversas entre as três.

Mako-Mori

Tem mulher? Tem arco dramático? É apoiado no arco do homem?

Aprovado. A história é sobre as três personagens e quase nem nos lembramos que existem personagens masculinos em volta delas. Quando surgem, atuam apenas de forma pontual para concretizar os planos de Sarah e Abigail.

Tauriel

Tem mulher? Ela só está na trama para ser par romântico/possui competência em algo?

Competentes demais, para a infelicidade do reino.

Sarah e Abigail são extremamente espertas, estrategistas e sagazes, sabem aproveitar as oportunidades que encontram e, apesar das principais posições políticas serem ocupadas por homens (com exceção da rainha), são elas que decidem os rumos da Inglaterra.

Barnett

Tanto homens quanto mulheres falam entre si só sobre o sexo oposto? Os personagens masculinos têm comportamento atrelado à violência que trate como humor/falta de seriedade/normal/aceitável/como se alguém merecesse a violência?

Reprovado. Tanto homens quanto mulheres conversam entre si sobre algo que não seja o sexo oposto. Mas há violência tratada com normalidade em diversos momentos e não apenas por parte de Sarah e Abigail em sua disputa pela preferência da monarca.

Em uma das situações, o personagem Harvey, líder da oposição, é violento com Abigail para persuadi-la a atuar em seus planos. Ele age com naturalidade e como se ela merecesse.

Em outro momento, um homem é violento com uma personagem feminina, como forma de impedi-la de sair de um aposento. Ele faz isso como um serviço prestado, obedecendo às ordens de uma outra mulher.

Além disso, em uma cena de preliminares sexuais, a violência é usada como artifício para induzir o tesão, apesar de ser realizada e reforçada tanto pelo homem quanto pela mulher.

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