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Hamnet: A vida antes de Hamlet | Teste Arte Aberta no Oscar 2026

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Hamnet: A vida antes de Hamlet, dirigido por Chloé Zhao, vencedora do Oscar por Nomadland (2021), é uma adaptação do romance homônimo de Maggie O’Farrell (2020), com roteiro coescrito pela própria diretora e pela autora do livro.

O longa recebeu oito indicações ao Oscar 2026: Filme; Direção; Atriz (Jessie Buckley); Roteiro Adaptado; Figurino; Elenco; Fotografia; e Design de Produção

A seguir, analisamos Hamnet com o nosso Teste Arte Aberta. Para saber mais sobre o teste, confira o texto introdutório

Hamnet

Sinopse

De acordo com a percepção do Arte Aberta evitando spoilers

Agnes (Jessie Buckley) e William (Paul Mescal) vivem na Inglaterra do século XVI. Ela é curandeira, conhecida por sua relação pouco convencional com o mundo ao redor, e foi justamente isso que atraiu William. Quando a família é atravessada por uma perda devastadora, os dois reagem de formas muito diferentes. O filme especula sobre a experiência que teria inspirado William Shakespeare a escrever Hamlet e, ao fazê-lo, coloca no centro a mulher que viveu essa história ao seu lado.

Hamnet

Ótica de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD 

A escolha de Chloé Zhao de deslocar o protagonismo da figura historicamente consagrada, William Shakespeare, para Agnes, sua esposa, não é um detalhe narrativo, é uma decisão política.

Agnes é curandeira, tem uma relação intensa com a natureza e com o conhecimento popular, e é frequentemente lida como excêntrica pelas pessoas ao redor. Em outra época, poderia ter sido chamada de bruxa. William não é retratado como um gênio distante, mas como um homem real cuja produção artística foi moldada por sua vida doméstica e pela mulher que ficou em casa enquanto ele partia para Londres. 

O filme apresenta uma perspectiva para a criação da obra Hamlet perpassada pelo luto vivido por ambos os protagonistas, que respondem de formas distintas ao sentimento. Agnes de forma mais visceral, internalizada, íntima. William, através da expressividade artística. 

Vale destacar que essa é uma tensão que o filme não resolve completamente: Agnes é associada à natureza, à intuição e ao conhecimento ancestral, enquanto William é associado à racionalidade, à palavra escrita e à arte reconhecida publicamente. Essa dicotomia entre natureza e cultura, entre o invisível e o consagrado, dá o mote para o filme e é explorada com sensibilidade. Mas ela também é um estereótipo de gênero bastante consolidado, e o filme não o subverte tanto quanto poderia. Frequentemente, essa associação de mulheres à natureza acaba sendo uma representação negativa, em oposição à associação dos homens ao mundo da cultura. Entretanto, no filme, observamos que Agnes e sua ligação com o natural é visto de forma positiva.

Do ponto de vista racial, Hamnet apresenta um elenco integralmente branco em termos de protagonismo e papéis com relevância narrativa. Há duas personagens negras que aparecem na cena final, sem qualquer destaque ou função narrativa específica. Não há representação LGBTQIA+ ou de pessoas com deficiência (PcD) no filme.

Representatividade de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD

Direção e Roteiro*

* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero

A direção é assinada por Chloé Zhao e o roteiro é coescrito por ela com Maggie O’Farrell. Zhao nasceu em Pequim, China, e é a segunda mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção, por Nomadland (2021). O’Farrell é a autora do romance que originou o filme, ela é branca e não há declarações públicas que a identifique como LGBTQIA+ ou PcD. Zhao é uma mulher não branca, que se declara neurodivergente e não há informações públicas sobre ser LGBTQIA+.

Dessa forma, a ficha técnica principal (direção e roteiro) é composta por 100% de mulheres, 50% de pessoas não brancas, 0% de LGBTQIA+ e 50% de PcD.

Elenco principal*

Créditos iniciais/finais

* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero

Nos créditos finais do filme, aparecem com destaque individual os nomes de Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Olivia Lynes, Justine Mitchell, Freya Hannan-Mills, David Wilmot, Louisa Harland e Noah Jupe. 

O elenco principal é composto por 54,54% de mulheres (Jessie Buckley, Emily Watson, Olivia Lynes, Justine Mitchell, Freya Hannan-Mills e Louisa Harland), 0% de pessoas não brancas, 0% de LGBTQIA+ e 0% de PcD, com base em declarações públicas disponíveis. 

Representação

Mulheres

Presença (Bechdel-Wallace)

As mulheres têm nome? 

Se falam por mais de 60 segundos?

Sobre outro assunto que não seja homens? 

Aprovado.

As personagens femininas têm nome e há diálogos recorrentes entre mulheres ao longo do filme, notadamente entre Agnes e a mãe de William, Mary, e entre Agnes e suas filhas, Judith e Susanna. A maior parte desses diálogos gira em torno do relacionamento com Will e dos filhos, o que é coerente com o universo doméstico que o filme retrata. Ainda assim, há diálogos suficientes entre mulheres sobre outros assuntos para que o filme seja aprovado no teste.

Arco Dramático (Mako-Mori) 

Tem mulher? 

Tem arco dramático próprio? 

O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de gênero?

Aprovado.

Agnes atravessa uma transformação interna profunda ao longo do filme. Sua jornada não existe em função do protagonismo masculino: ela é a protagonista do filme. O arco parte de uma mulher em luto e encontra, através de um processo doloroso e não linear, uma forma de seguir existindo. A pergunta central do filme é como transformar a perda em arte sem trair aquilo que se perdeu. Embora tenha sido respondida por William (através da obra Hamlet), só faz sentido quando tensionado por ela.

Há um ponto que merece atenção: a já mencionada associação de Agnes à natureza e à ancestralidade, em oposição à escrita e ao reconhecimento público de William. O arco de Agnes é potente, mas ainda orbita em torno da criação artística dele, e essa tensão é constitutiva do filme. 

Competência (Tauriel)

Houve mulher(es) com atividade profissional definida? 

Ela é competente na atividade?

Grau da Competência Caso a mulher seja competente, quão competentes elas são em sua atividade profissional (1 a 5 , sendo  1 – pouco competente e 5 – muito competente) 

Houve reconhecimento dessa competência?

Aprovado. 

Nota: 5

Agnes é curandeira e essa atividade é central para sua identidade ao longo de toda a narrativa. Seu conhecimento sobre plantas e cura não é folclorizado nem tratado como exotismo. É apresentado como um sistema de saber legítimo e eficaz, reconhecido pela sua família e comunidade ao seu redor, e é um dos pilares que sustentam sua presença no filme. 

Qualidade da representação – mulheres

Como é a representação das personagens mulheres (escala de -1 a 3)

Sendo -1, estereótipos ofensivos;  

0, não tem; 

1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos; 

2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos; 

3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos  estereótipos

Nota: 3

Agnes é uma personagem principal complexa, contraditória e dotada de agência. Não é reduzida a apoio emocional para um personagem masculino, nem construída a partir de tropos facilmente identificáveis. Ao mesmo tempo, a dicotomia natureza/cultura que estrutura a relação entre Agnes e William é um estereótipo de gênero com longa tradição, e o filme a utiliza como eixo narrativo sem problematizá-la diretamente. Isso não invalida a força da personagem, mas é um fato que vale registrar.

Raça

Arco dramático (Mako Mori)

Tem personagem não branco? 

Tem arco dramático próprio? 

O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de raça?

Reprovado.

Não há personagens não brancos com arco dramático no filme. Há duas personagens negras que aparecem na cena final, sem qualquer destaque ou função narrativa específica, dois rostos em meio a uma multidão. 

Qualidade da representação – raça

Como é a representação dos personagens não brancos (escala de -1 a 3)

Sendo -1, estereótipos ofensivos;  

0, não tem; 

1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos; 

2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos; 

3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos  estereótipos

Nota: 0

O elenco é integralmente branco em termos de protagonismo e papéis com relevância narrativa. A presença de duas figurantes negras na cena final não configura representação. O contexto histórico da Inglaterra elisabetana do século XVI pode ser mobilizado como justificativa para essa ausência. 

LGBTQIA+

Arco dramático (Mako Mori)

Tem personagem LGBTQIA+? 

Tem arco dramático próprio? 

O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de LGBTQIA+?

Reprovado. 

Não há representação LGBTQIA+ no filme.

Qualidade da representação – LGBTQIA+

Como é a representação das personagens LGBTQIA+ (escala de -1 a 3)

Sendo -1, estereótipos ofensivos;  

0, não tem; 

1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos; 

2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos; 

3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos  estereótipos

Nota: 0

Não há representação LGBTQIA+ no filme.

PcD 

Arco dramático (Mako Mori)

Tem personagem PcD?

Tem arco dramático próprio? 

O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de PcD?

Reprovado. 

Não há representação de pessoas com deficiência no filme.

Qualidade da representação – PcD

Como é a representação das personagens PcD (escala de -1 a 3)

Sendo -1, estereótipos ofensivos;  

0, não tem; 

1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos; 

2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos; 

3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos  estereótipos

Nota: 0

Não há representação de pessoas com deficiência no filme.

Resumo do Teste Arte Aberta

Representatividade

Representação

Estrelas Arte Aberta: 1

Por Rafael Maximiniano

Historiador por formação, ainda não encontrou o trabalho perfeito em que só precise ler e assistir obras de ficção científica e fantasia durante o dia todo. Gamer nas horas vagas e viciado em café, bem antes de surgirem aqueles memes ridículos de minions no facebook falando “Não converse comigo antes do meu café”.

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