O filme Uma batalha após a outra recebeu 13 indicações ao Oscar 2026, ficando em segundo lugar no número de nomeações deste ano, atrás apenas de Pecadores, que concorre em 16 categorias. As indicações são: Filme; Diretor (Paul Thomas Anderson); Ator (Leonardo DiCaprio); Ator Coadjuvante (Benicio del Toro); Ator Coadjuvante (Sean Penn); Atriz Coadjuvante (Teyana Taylor); Elenco; Roteiro Adaptado; Trilha Sonora; Som; Fotografia; Design de Produção; e Montagem.
Uma batalha após a outra, apesar de absurdo e distópico, toca em temas de nossa contemporaneidade de forma cruel e real. Temos revolucionários que abraçam a luta armada para salvar imigrantes mantidos em jaulas ao redor da fronteira EUA/México pelo governo estadunidense; grupo de supremacistas brancos que expõe planos e ações de “purificação” da raça e que dá aos seus integrantes incontáveis privilégios; comunidades latinas que se apoiam e que sobrevivem com uma rede de comunicação e de logística entre túneis, ruas e prédios. Nenhum grupo passa sem mostrar falhas, caricaturas e absurdos. Obviamente nada se compara à maldade, ao racismo e ao senso de superioridade intocável do grupo Christmas Adventurers (Clube dos Aventureiros Natalinos) – homens ricos e influentes na política estadunidense que fazem uma seleção detalhada para novos integrantes. Em sua “missão”, esbravejam preconceitos e matam para deixar o seu histórico “limpo”.
Com todos os fatos reais a que temos acesso hoje (como os arquivos de Epstein ou as ações e poderes dados ao ICE hoje nos EUA), não conseguimos encarar o filme como tão absurdo e ficcional. O mundo real, infelizmente, tem nos presenteado com um roteiro mais bizarro a cada dia.
Dentro de todo esse contexto macro, temos a narrativa pessoal de um pai e de uma filha que precisam enfrentar a burocracia dos códigos da revolução e o racismo aterrorizante e assassino dos supremacistas brancos para se reencontrarem e se salvarem.
O teste Arte Aberta busca avaliar a diversidade presente nos filmes, em especial a representação de mulheres, pessoas não brancas, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência (PcD). Não é um teste que necessariamente avalia o mérito dos filmes, mas que pretende indicar o seu grau de diversidade e de não estereotipação dos personagens.
Então, vamos para a análise do filme Uma batalha após a outra de acordo com o Teste Arte Aberta. Para saber mais sobre o teste, confira o texto introdutório.

Sinopse
De acordo com a percepção do Arte Aberta evitando spoilers
O filme se passa em dois momentos. O primeiro retrata o início da Revolução “French 75”, na qual um grupo de militantes luta para libertar os imigrantes da autocracia instalada, promovendo a libertação de presos na fronteira dos EUA com o México, além de realizar assaltos e afins. O final dessa primeira parte mostra Bob Ferguson (o ex-radical “Ghetto Pat”) fugindo com sua filha bebê, Willa (antes Charlene), para se esconder dos militares, após um grupo de revolucionários ter sido preso.Entre eles estava a mãe da criança, Perfídia, que entregou informações sobre o grupo. Passam-se 16 anos e vemos Willa, agora uma jovem, indo aos bailes da escola, enquanto seu pai está distante da militância e vivendo uma vida regada a álcool e paranoia.

Ótica de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
Há no filme destaque para três personagens mulheres e negras: Perfídia, Willa e Deandra. As duas primeiras, mãe e filha, têm respectivamente dominância de tempo de tela na primeira e na segunda parte do filme. As duas apresentam em suas narrativas pontos de virada e profundidade de construção, possuindo, assim, arco dramático.
Perfídia, inclusive, é uma personagem que quebra muitos estereótipos ligados às mulheres e às mães. Ela é uma das líderes da Revolução “French 75”. É ela que dá as ordens a Ghetto Pat. Quando ela invade a base militar para libertar os imigrantes presos, encontra-se com o Coronel Steven J. Lockjaw, com quem desenvolve uma relação sexual de dominação e acaba engravidando, mesmo envolvida em um relacionamento com Pat. Durante a gravidez, Perfídia continua agindo da mesma forma, quebrando o esperado da mulher grávida – que “deveria” trazer uma aura de santidade e de cuidado. Em uma conversa com Deandra, Pat afirma: “é como se ela nem percebesse que está grávida”.

Perfídia acabava de disparar tiros de sua metralhadora com o barrigão à mostra. Depois conversa com Junglepussy sobre o prazer da revolução. Em um outro momento, a mãe de Perfídia comenta com Pat que a filha vem de uma longa linha de revolucionários e que ele, pelo contrário, é muito parado.
Quando Charlene nasce, Perfídia não se adapta à nova vida, sofrendo muito (quem sabe tendo uma depressão pós-parto, mas isso não é abordado nestes termos). Então, ela acaba abandonando aquela vida, apesar dos apelos de Pat ao suplicar que “agora somos uma família”.

Em um assalto, Perfídia acaba atirando em um policial e, assim, acaba sendo presa pela polícia. A cena da sua prisão é regada a humilhações, com os policiais aglomerados ao lado dela tirando fotos e comemorando. Porém, Lockjaw decide “salvá-la”, levando-a para um abrigo de proteção a testemunhas, desde que ela entregue todo o grupo – o que ela faz, tornando-se a grande traidora da revolução. Quando abandona Lockjaw e seu “sonho americano”, Perfídia deixa um recado (assim como quando abandonou Pat e sua filha) ressaltando que ninguém é seu dono e que ela tomará sempre as decisões pensando nela mesma.
Na segunda parte, temos Willa em destaque, a garota agora com 16 anos. Willa treina, sai com os amigos, cuida da casa e briga pelos excessos de álcool do pai. É tida como uma líder na escola e uma ótima aluna. O pai a proíbe de ter celular, mas como toda adolescente, ela tem um escondido. O ponto de virada ocorre quando Deandra, amiga de seus pais da revolução, a encontra e a leva, porque teve conhecimento que Lockjaw está em sua busca.
A questão é que o Coronel foi convidado para o seleto grupo Clube dos Aventureiros Natalinos e sabe que será barrado se descobrirem a sua filha com uma mulher negra. Sua meta agora é eliminá-la. Então, temos toda essa parte de ação do filme: Deandra tenta se esconder com Willa, mas é encontrada por Lockjaw; Bob precisa vencer a burocracia dos códigos da revolução, dos quais não se lembra mais; e o Sensei Sergio St. Carlos ativa toda a sua rede de suporte aos imigrantes para que eles não sejam capturados pelo arsenal de militares que o coronel trouxe junto com ele (como pretexto para de fato achar e matar a sua filha).
Assim, sob a ótica de gênero e raça, temos duas personagens de destaque na trama: Perfídia e Willa; além de outras participações importantes, como a de Deandra.

Sob a perspectiva LGBTQIA+, há a presença de uma pessoa amiga de Willa, Bobo, que se apresenta como não binária. Inclusive, o pai destaca que a pessoa está usando batom e que quer saber se é ela ou ele, e Willa destaca os seus pronomes (elu/delu – they/them, em inglês). Não há presença de pessoas com deficiência na narrativa.
Representatividade de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
Direção e Roteiro*
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
A direção e o roteiro são de Paul Thomas Anderson. O filme, inclusive, concorre nestas duas categorias: Direção e Roteiro Adaptado, a partir da obra Vineland, de Thomas Pynchon. Anderson já havia dirigido outro filme baseado em uma obra de Pynchon: Vício inerente (2014). PTA é um homem branco e não encontramos nada sobre o diretor ser LGBTQIA+ e PcD. Dessa forma, a ficha técnica principal (direção e roteiro) é composta 0% por pessoas não brancas, 0% por mulheres, 0% por PcD e 0% por LGBTQIA+.

Elenco principal*
Créditos iniciais/finais
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
Nos créditos finais do filme, aparecem em destaque seis pessoas: Leonardo DiCaprio (Bob); Sean Penn (Coronel Steven J. Lockjaw); Benicio Del Toro (Sensei Sergio St. Carlos); Teyana Taylor (Perfídia); Regina Hall (Deandra) e Chase Infiniti (Willa). Os três homens concorrem a estatuetas no Oscar: DiCaprio por Ator Principal e Penn e Del Toro por Ator Coadjuvante. Assim, temos três homens brancos, com a ressalva de que Benício Del Toro é porto-riquenho. Por ser uma obra estadunidense, vale o destaque para a representatividade latina trazida pelo ator. Inclusive, Del Toro foi o segundo ator porto-riquenho a receber um Oscar (Ator Coadjuvante por Traffic, em 2001), após o prêmio de Rita Moreno (Atriz Coadjuvante por Amor, sublime amor, em 1962).
Além dos três homens brancos, temos três mulheres negras no elenco principal. Entre as três, Teyana Taylor concorre ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.
Não encontramos nada na internet sobre o elenco ser LGBTQIA+ e PcD. Dessa forma, o elenco é composto por 50% de mulheres, 50% de não brancos, 0% de LGBTQIA+ e 0% de PcD.

Representação
Mulheres
Presença (Bechdel-Wallace)
As mulheres têm nome?
Se falam por mais de 60 segundos?
Sobre outro assunto que não seja homens?
Aprovado.
Apesar de as mulheres com maior presença na trama (Perfídia e Willa) não conversarem, a não ser por uma carta no final do filme, há alguns diálogos entre Willa e Deandra, quando esta última a encontra no banheiro da escola e a leva para tentar fugir de Lockjaw. Elas conversam no carro, inclusive quando Deandra descobre que a garota possui um celular (o que faz com que o Coronel a rastreie). No esconderijo, um convento fora do comum, elas conversam sobre a mãe de Willa, Perfídia.
Assim, o filme é aprovado no Teste de Bechdel, inclusive com a adaptação do Teste Arte Aberta, que exige que as trocas de conversas devem somar mais de 60 segundos.

Arco Dramático (Mako-Mori)
Tem mulher?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de gênero?
Aprovado.
Tanto Perfídia como Willa possuem arco dramático. Como já relatamos, Perfídia quebra inúmeros estereótipos femininos e maternos. No final da narrativa, temos a entrega de uma carta de Perfídia para Willa. Não que Perfídia agora transforme-se no estereótipo materno, mas ela deixa aberta a possibilidade de encontro, caso a filha queira conhecê-la no futuro. Já o ponto de virada de Willa é quando ela de fato vivencia o terror do ódio supremacista branco e entra para a revolução – fazendo aí referência ao nome do filme, de batalhas que não têm fim, porque o mal não tem fim (mas tampouco os bons e os que querem justiça social e cidadania para todos).

Competência (Tauriel)
Houve mulher(es) com atividade profissional definida?
Ela é competente na atividade?
Grau da Competência Caso a mulher seja competente, quão competentes elas são em sua atividade profissional (1 a 5 , sendo 1 – pouco competente e 5 – muito competente)
Houve reconhecimento dessa competência?
Aprovado.
Nota: 5
Perfídia é uma das líderes da Revolução French 75. Tudo bem que depois ela trai e entrega as pessoas do grupo, seguindo a sua maior missão de vida, que é se colocar em primeiro lugar. Willa é elogiada pela professora da escola como uma líder nata e uma ótima aluna, além de ser destaque nas aulas de karatê. Por isso, acreditamos que vale a nota máxima.

Qualidade da representação – mulheres
Como é a representação das personagens mulheres (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 3
Não há espaço aqui para estereótipos femininos. Na verdade, vale o destaque para a força de Perfídia e Willa frente a Bob – que parece sempre meio perdido, apesar de não desistir na luta por encontrar a sua filha.

Raça
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem não branco?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de raça?
Aprovado.
A questão da raça é fortemente presente no filme. Do lado negativo, temos a exposição do grupo de supremacistas brancos. Do outro lado, as pessoas negras e latinas/imigrantes são aquelas que não desistem de lutar para ter um país melhor, mais tolerante e cidadão. Mais uma vez, as personagens Perfídia e Willa deixam aqui a sua marca e garantem a aprovação do teste na intersecção de gênero e raça.

Qualidade da representação – raça
Como é a representação dos personagens não brancos (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 3
Já que temos esta interseccionalidade de gênero e raça, sendo Perfídia e Willa duas mulheres negras, o teste também é aprovado no quesito raça, já que elas estão em destaque.

LGBTQIA+
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem LGBTQIA+?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de LGBTQIA+?
Reprovado.
Há uma única pessoa LGBTQIA+. Uma pessoa não binária, Bobo, amigue de Willa. Porém, possui pouco tempo de tela e não possui arco dramático.
Qualidade da representação – LGBTQIA+
Como é a representação das personagens LGBTQIA+ (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 1
Nota um pela presença de Bobo, que é personagem de apoio.

PcD
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem PcD? Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de PcD?
Reprovado.
Não há representação de PcD no filme.
Qualidade da representação – PcD
Como é a representação das personagens PcD (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 0
Não há representação de PcD no filme.
Resumo do Teste Arte Aberta

Representatividade


Representação



Estrelas Arte Aberta: 2

