O filme Valor sentimental recebeu nove indicações ao Oscar 2026: Filme; Diretor (Joachim Trier); Filme Internacional; Atriz (Renate Reinsve); Ator (Stellan Skarsgård); Atriz Coadjuvante (Elle Fanning); Atriz Coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleaas); Roteiro Original (Eskil Vogt e Joachim Trier); e Montagem (Olivier Bugge Coutté).
O filme norueguês compartilha com o nosso brasileiro O agente secreto as indicações de Melhor Filme e Filme Internacional, ressaltando as duas produções no cenário extra-estadunidense nesta edição do Oscar.
O teste Arte Aberta busca avaliar a diversidade presente nos filmes, em especial a representação de mulheres, pessoas não brancas, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência (PcD). Não é um teste que necessariamente avalia o mérito dos filmes, mas que pretende indicar o seu grau de diversidade e de não estereotipação dos personagens.
Então, vamos para a análise do filme Valor sentimental de acordo com o Teste Arte Aberta. Para saber mais sobre o teste, confira o texto introdutório.

Sinopse
De acordo com a percepção do Arte Aberta evitando spoilers
Duas irmãs, Nora e Agnes, após a morte da mãe, voltam a conviver com o pai, Gustav, um renomado diretor de cinema que, após 15 anos, quer dirigir um novo filme de ficção. Gustav oferece à filha Nora o papel principal.

Ótica de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
Valor sentimental traz a casa da família Borg como a alma do filme, o espaço de intimidade, de abrigo e de devaneio. Juntamente com a dramaturgia (teatro e cinema), a casa da família costura os traumas geracionais e a busca por suas cicatrizações.
Para Gaston Bachelard, em seu livro A Poética do Espaço, o espaço interior, a casa, é um “ser” privilegiado para o estudo dos valores da intimidade. Deve-se entender a casa em sua unidade e complexidade, tentando integrar os seus valores particulares num valor fundamental. A ideia desenvolvida por Bachelard é o entendimento da casa como instrumento de análise para a alma humana.
“Não apenas as nossas lembranças, mas também os nossos esquecimentos estão aí ‘alojados’. Nosso inconsciente está ‘alojado’. Nossa alma é uma morada. E quando nos lembramos das ‘casas’, dos ‘aposentos’, aprendemos a ‘morar’ em nós mesmos. Vemos logo que as imagens da casa seguem nos dois sentidos: estão em nós assim como nós estamos nelas”. – Bachelard, 1978, pág. 197
No centro da história temos Gustav Borg, um cineasta renomado, mas que há 15 anos não lança novo filme de ficção; e suas duas filhas: Nora, a mais velha, que segue o universo profissional do pai, na dramaturgia, atuando em peças e séries; e Agnes, que mesmo tendo atuado ainda criança em um dos reconhecidos filmes do pai, agora é uma historiadora, casada e mãe de um menino.
O filme tem início quando a mãe de Nora e Agnes morre. Não sabemos muito sobre Sissel. A sua existência é repassada por fragmentos de memória das filhas, e algumas poucas falas do ex-marido. Sabemos que ela era terapeuta, que ficou com a guarda das crianças quando se separou do marido e que o casal, antes de se divorciar, discutia muito, o que era captado pelas garotas. Na separação, Sissel, Nora e Agnes ficam na casa da família Borg, com toda a sua história e suas rachaduras. Vamos, ao longo da narrativa, acompanhar vislumbres de outras habitações, famílias e vidas que passaram pela grande casa em Oslo (Noruega).

Com a morte de Sissel, Gustav volta a morar na casa até vender a propriedade. Nora mora em seu apartamento sozinha, habitação que conhecemos uma vez no filme.E Agnes reside com seu marido, Even, e o filho Erik, casa visitada muitas vezes por Nora, um espaço com vida, com pessoas e festas. Ao retornar ao convívio com as filhas, Gustav convida Nora para que ela seja protagonista do seu próximo filme de ficção. A atriz nega o papel sem nem mesmo ler o roteiro. Durante a conversa, ela busca a validação do pai por seus papeis em peças e em uma série. O cineasta se evade, insiste em dizer que não gosta do ambiente do teatro, por isso, não comparece às peças da filha. Ele afirma, entretanto, que conhece uma boa atriz em cinco minutos e que sabe que ela seria ideal para o papel. Ela não cede.
Gustav continua o seu projeto e, ao conhecer uma jovem atriz estadunidense, Rachel Kemp, que está encantada com os filmes antigos do cineasta, a indica para ser a protagonista de seu filme. Temos, assim, muitas camadas de uma história permeada por habitações e dramaturgias. Há ainda mais uma interseção nessas histórias, sentimentos contundentes e inefáveis: a dor, o luto, a depressão.

A mãe de Gustav Borg, quando este ainda era uma menino que buscava a beleza nas sombras, naquela mesma casa, se suicida. Isso depois de ter lutado contra o nazismo e ter sido presa e torturada. Karin Borg, após liberta, não fala sobre os tempos e os sofrimentos da prisão. Um trauma silenciado. Com a morte de Karin, a sua irmã mais nova, Edith, assume a habitação da família. Edith mora com uma outra mulher, elas se beijam em uma cena, numa festa, mas não sabemos muito mais sobre elas além disso. Gustav e seu pai vão morar na Suécia. O garoto, porém, visita a tia em sua antiga casa em muitos verões e acaba herdando a residência quando Edith morre. E, assim, um dia, essa mesma casa também seria de Gustav, Sissel, Nora e Agnes. E depois apenas das três mulheres, após a separação do casal.
Da casa à dramaturgia. Agora, temos Rachel Kemp preparando-se para o papel. Não tendo mais a filha como a protagonista, Gustav também convida Erik, filho de Agnes, para atuar no filme, o que a filha mais nova também nega. Na conversa, a quase sempre compreensiva Agnes comenta com o pai a dor que foi ter toda a sua atenção durante o filme, quando ela atuou quando criança, e depois vivenciar a ausência do pai. Ela só o tinha ali no set, não na vida real.
Rachel, quando assume o papel de protagonista, e ao saber que a mãe do cineasta morreu naquela mesma casa, quer entender mais a dor daquela mulher, o porquê de, mesmo tendo um filho, escolher o fim da vida. Gustav comenta que o filme não é sobre sua mãe, mas não insiste no tema. É ou não é sobre a mãe? Como compreender aquela dor? Como assimilar aquela decisão? Rachel tenta, mas não consegue, e acaba por desistir do filme.
Gustav parece aceitar tudo o que acontece, mesmo sabendo que aquele é o filme que ele gostaria de fazer, naquela casa e com sua filha como protagonista. Ele havia aceitado outra protagonista, outra língua para o seu filme, contanto que aquela história fosse contada. O produtor e parceiro de longa data também afirma que eles precisaram passar por tudo para chegar ali, naquele desenho, naquela produção, que poderia ser a última, mas que valeria a pena por sua beleza.
Entre o convite para Erik participar e a saída de Rachel do filme, há mais um encontro com a dor. Agnes pela primeira vez lê o roteiro do pai. Entende a beleza daquela história e compreende que o filme é muito mais sobre Nora do que sobre Karin. Gustav, entre a mãe que se matou por silenciar a dor e a filha que também carrega tão profundamente seus traumas, tenta reescrever a história dessas mulheres.
Ele, no meio, também sente. Sente a dor que pode acometer os sensíveis, os que calam, os que carregam todas as dores do mundo. Talvez o que ele busque seja salvar a filha daquela beira do precipício. Ele não sabe que a filha tentou se matar, ele não estava lá, mas ele sente. Paralelamente, é para lá que Nora está indo mais uma vez, para os braços da depressão. Ela falta às suas apresentações de teatro e não atende as ligações da irmã. Agnes não desiste, vai ao encontro da irmã, abre as janelas de seu apartamento, limpa as comidas espalhadas e entrega o roteiro do pai.

Agnes entendeu que ali não há um pedido de desculpas, não caberia depois de tantos anos ausente, mas há uma nova história a partir de agora, um novo olhar, uma possibilidade de ter na arte a mediação para as cicatrizes. Agnes já havia encontrado o seu lugar no mundo, longe daquele universos de roteiros e encenações. A filha mais nova migrou para a vida real, como historiadora.
Voltamos à casa, que carrega a história de tantas mulheres, traumas e conexões, agora como cenário. E Nora é a protagonista. Nós, do outro lado deste metacinema, esperamos que agora ela possa “morar em si mesma”, como disse Bachelard.
Assim, sob a ótica de gênero, temos potentes representações, com Nora, Agnes e Rachel, além das outras mulheres relatadas em toda a linha genealógica dos Borg. Em relação a representações LGBTQIA+ temos a indicação de Edith e Lillian como um casal, com um beijo entre as duas e a ideia de que moram juntas. Em relação a pessoas com deficiência, podemos citar o diretor de fotografia que Gustav quer chamar para o seu filme, Peter. Ele já é um idoso e, quando o cineastas o visita, depois de anos sem dar notícias, ele se assusta ao perceber que Peter está andando com a ajuda de uma bengala. Não fica óbvio, mas entendemos que Gustav está receoso que Peter não dê conta do trabalho. No quesito raça, não há representação de pessoas não brancas.

Representatividade de gênero, raça e LGBTQIA+/PcD
Direção e Roteiro*
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
A direção é de Joachim Trier, e o roteiro é dele juntamente com o seu parceiro em outras obras, Eskil Vogt. Os dois são homens brancos e não há referências deles serem LGBTQIA+ ou PcD.
Dessa forma, a ficha técnica principal (direção e roteiro) é composta 0% por pessoas não brancas, 0% por mulheres, 0% por PcD e 0% por LGBTQIA+.

Elenco principal*
Créditos iniciais/finais
* Classificação é feita de acordo com a declaração pública e disponível das pessoas LGBTQIA+/PcD e heteroidentificação de raça e gênero
Nos créditos iniciais do filme, aparecem em destaque quatro pessoas: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning. Renate Reinsve, inclusive, é a protagonista de A pior pessoa do mundo, filme anterior de Joachim Trier. O filme foi indicado a duas categorias no Oscar 2022: Roteiro Original e Filme Internacional.
Assim, temos três mulheres brancas e um homem branco no elenco principal. Não encontramos nada na internet sobre o elenco ser LGBTQIA+ e PcD. Dessa forma, o elenco é composto por 75% de mulheres, 0% de pessoas não brancas, 0% de pessoas LGBTQIA+ e 0% de pessoas com deficiência.

Representação
Mulheres
Presença (Bechdel-Wallace)
As mulheres têm nome?
Se falam por mais de 60 segundos?
Sobre outro assunto que não seja homens?
Aprovado.
Há no filme a presença de muitas mulheres com nome. Sem dúvida, as que mais conversam entre si são as irmãs Nora e Agnes. Inclusive, uma das mais belas cenas do filme é um diálogo entre as duas, no qual Nora questiona a irmã sobre como ela conseguiu se tornar uma pessoa sã, construir uma família e ter uma casa, enquanto ela é aquela confusão, mesmo as duas tendo compartilhado a mesma infância. Agnes afirma que a grande diferença foi que ela pôde contar com o cuidado e o amor da irmã mais velha.

Arco Dramático (Mako-Mori)
Tem mulher?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de gênero?
Aprovado.
Nora, Agnes e Rachel carregam suas próprias histórias. Nora é sem dúvida a mais completa e complexa, com seu percurso depressivo e sua busca pela arte e pelo sentido da vida. Agnes também tem suas camadas, mostrando ao espectador uma mulher que iniciou no cinema, sendo atriz do filme do pai ainda criança, mas que decide que sua felicidade e tranquilidade estão em outro lugar, em outra profissão.
Rachel, mesmo sendo considerada uma atriz estadunidense de sucesso, não quer simplesmente ser protagonista de um “filme sério”. Ela quer que o seu papel faça sentido: para ela, para a história, para o diretor. Abandonar a produção, como é falado por Gustav, não é um fracasso, mas uma afirmação de sua integridade.

Competência (Tauriel)
Houve mulher(es) com atividade profissional definida?
Ela é competente na atividade?
Grau da Competência Caso a mulher seja competente, quão competentes elas são em sua atividade profissional (1 a 5 , sendo 1 – pouco competente e 5 – muito competente)
Houve reconhecimento dessa competência?
Aprovado.
Nota: 5
Rachel Kemp é reconhecida por seu sucesso no mercado cinematográfico, não só como atriz, mas também como produtora. Há críticas sobre os tipos de filmes que faz, mas ela é defendida por Gustav explicitamente. Agnes é historiadora e Gustav afirma que ela realiza pesquisas para os seus filmes. Há uma cena dela buscando material sobre o tempo de Karin Borg na prisão. Nora é uma atriz de teatro reconhecida. Ao longo da narrativa, ela busca a validação do pai, o que não alcança. Mas quando está atuando no filme de Gustav, ele finaliza uma das cenas falando que ela está perfeita.

Qualidade da representação – mulheres
Como é a representação das personagens mulheres (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 3
Nora, Agnes e Rachel são mulheres que fogem de definições de estereótipos, mesmo quando tentam encaixá-las nessas caixinhas. Rachel, por exemplo, inicia sendo apresentada como uma atriz de sucesso que atua apenas em filmes “fáceis”, mas parte para a Noruega para trabalhar com Gustav e surpreende ainda mais quando desiste do filme porque não sente que aquele papel faz sentido para ela.

Raça
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem não branco?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de raça?
Reprovado.
Não há representação de pessoas não brancas no filme.
Qualidade da representação – raça
Como é a representação dos personagens não brancos (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 0
Não há representação de pessoas não brancas no filme.
LGBTQIA+
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem LGBTQIA+?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de LGBTQIA+?
Reprovado.
Há uma única cena em que duas mulheres se beijam em uma festa e há a percepção de que as duas moram juntas e podem ser um casal, mas isso fica sutil na narrativa.
Qualidade da representação – LGBTQIA+
Como é a representação das personagens LGBTQIA+ (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 1
Mais uma vez, há a representação de Edith, tia de Gustav, e Lillian, que moram juntas e se beijam em uma festa. As duas são personagens de apoio.
PcD
Arco dramático (Mako Mori)
Tem personagem PcD?
Tem arco dramático próprio?
O arco dramático é apoiado essencialmente em estereótipos de PcD?
Reprovado.
Há referência a um personagem com deficiência, Peter, o diretor de fotografia que havia trabalhado há anos com Gustavo. Ele tem dificuldade de locomoção e se utiliza de uma bengala. O personagem, porém, não tem arco dramático próprio.
Qualidade da representação – PcD
Como é a representação das personagens PcD (escala de -1 a 3)
Sendo -1, estereótipos ofensivos;
0, não tem;
1, personagem de apoio ou secundários/principais com muitos estereótipos;
2, personagens secundários/principais com poucos estereótipos;
3, personagem principal/secundário muito bem representada, ou personagem principal sem ou com pouquíssimos estereótipos
Nota: 1
Primeiramente, quando Gustav encontra Peter, fica implícito que ele não vai contratar o antigo parceiro por acreditar que ele não consiga mais dar conta de assumir o papel de diretor de fotografia. É interessante que no final do filme, quando Gustav está filmando com Nora, Peter está ao seu lado. Entendemos que o cineasta seguiu seus instintos e acreditou no trabalho que sempre fez ao lado do parceiro e diretor de fotografia, não deixando a deficiência afetar seu julgamento.
Cabe destacar também que o tema da depressão e da saúde mental é central no filme.
Resumo do Teste Arte Aberta

Representatividade


Representação



Estrelas Arte Aberta: 1,5

