Carta para Nadia |Série Boneca Russa (Russian Doll)

Nadia,

[com spoilers]

“A vida é curta, a arte é longa”, Hipócrates.

“Saiba que você também vai morrer”. É o significado do termo em latim “memento mori”, repetido pelos estoicos antigos e contemporâneos na esperança de alertá-los (ou alertar-nos) da importância de aproveitar o momento presente. Somos finitos e, com isso em mente, é preciso cuidar do nosso tempo. Assim que nascemos começamos a morrer. É a certeza inquestionável que jogamos para debaixo do tapete na esperança de não bagunçar a nossa mente. Mas não precisa ser assim. Encarar a finitude é exatamente o oposto de desperdiçar o tempo. É viver! É saber que temos tempo suficiente, se soubermos como investir nossas melhores moedas. Ou como você bem disse – “encarar a própria mortalidade é muito melhor que diversão”.

Então, de forma breve, já que sabemos que o tempo é raro e está sempre se esvaindo de nossas mãos, aponto aqui que esse tal de estoicismo vem de séculos antes de Cristo, mas ficou mais conhecido pela tríade Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio. Tem como umas das principais premissas, além da noção da finitude, a aposta em controlar as nossas respostas aos estímulos do mundo externo, não reagindo como se ele estivesse nos trolando – ou mesmo se estivesse – e assumindo a responsabilidade pela nossa reação, sentimentos e ações frente a tudo o que acontece. Tudo bem que Sêneca trabalhou para – e foi condenado à morte pelo – imperador Nero, mas será que ele teria sido tão estóico no Brasil de hoje? Tenho minhas dúvidas.

Agora, após essas digressões filosóficas, me conta, como é encarar esta certeza da morte tão próxima? E de novo e de novo? Como é saber que aquele rancor com o mundo não valia a pena? Como é descortinar o perdão necessário consigo mesma e com pessoas tão próximas a você?

Além de tudo isso, preciso te falar, rolou uma identificação sobre a reivindicação – ou pelo menos o questionamento – sobre mulheres e crises de meia idade, desencadeada no dia do seu 36o aniversário. Porque é uma questão de representação, não é? Quantos filmes já foram lançados sobre a crise de meia idade de um cara? Não saberia te dizer. Mas, e nós mulheres, temos o direito de passar por questionamentos dessa ordem? Obviamente, anseios, dúvidas e pensamentos bem diferentes, você não acha? Afinal, você bem entende sobre as desigualdades de gênero, sendo questionada a cada código criado no trabalho! Por sinal, é sensacional você mostrar de forma tão óbvia o machismo em um ambiente profissional que valoriza apenas os caras. Você, de ressaca, com sua blusa vermelho-sangue, óculos escuros e zero preocupação com aquela reunião, corrige o erro de um colega – que foi apontado como seu – na hora! Porque sim, você sabe e é capaz.

Ao mesmo tempo, quantas mulheres interessantes você tem ao seu redor! Amigas que aceitam sua loucura, que embarcam juntas, que te surpreendem com festas e te preparam refeições. Tudo bem, há desentendimentos também. A questão é que você está mesmo meio louca-com-medo-de-escadas, não é? Fica difícil entender o que está acontecendo com sua cabecinha com o olhar de fora.

Sempre me encantei com esses lances de espaço-tempo e multiversos, e da possibilidade de trabalhar isso em narrativas audiovisuais. E tem mais! Quem cresceu nos anos 1990 e não tem uma relação afetiva com o filme Feitiço do tempo? Então, assistir à sua história é quase uma ode às sessões da tarde que passamos vendo aquele dia da marmota em looping. Só que agora, em 2019, com uma mulher protagonista! Bem melhor.

Agora é com você. Uma mulher independente, inteligente, rodeada de pessoas interessantes, cheia de ideias sobre relacionamentos livres, que na noite do seu aniversário morre, apenas para descobrir que voltou a um ponto específico de sua festa: no banheiro da casa de sua amiga, lavando as mãos e olhando para o espelho! Para o espelho, Nádia. Olhando para você mesma. E você vai fazer esse retorno até – de fato – olhar para si, para dentro.  

E, mesmo sabendo que você é apenas a personagem, vamos falar também de representatividade? As criadoras e diretoras do seriado são três mulheres: Leslye Headland, Natasha Lyonne (bem, você na narrativa) e Amy Poehler. As escritoras? Todas mulheres também! Ao mesmo tempo, aviso aos que fingem que isso não importa, não há uma obviedade na narrativa sobre a questão das mulheres. As mulheres simplesmente existem, com suas camadas e complexidades. Você não acha? Que pena que isso é tão raro. Na grande maioria das produções audiovisuais estamos ali quase apenas como objetos, como ferramentas, como instrumentos de uma engrenagem a favor da narrativa do homem.

Tudo bem, na sua história também temos a relação com um cara, mas é você a condutora. A protagonista da sua própria vida – e morte! Há caras que te rodeiam, te orbitam. E há o Alan, que vamos conhecer mais a cada episódio, e ele é um cara interessante também.

Alan é tão diferente de você. Que só uma loucura do destino teria feito vocês tão ligados. Não apenas na forma de encarar o mundo, nos jeitos, mas também nos problemas existenciais que carregam (e precisam resolver). O maior problema de Alan é que sua namorada, a quem ele decide pedir em casamento, o está traindo. Mas, lembre-se, a nossa reação às ações do mundo é o que gera maior impacto. E, Alan, infelizmente, não está vendo saída dentro de si para essa dor e frustração. Alerta importante aí sobre as masculinidades e a questão da saúde mental.  

Na evolução de Alan, nas voltas constantes que ele também faz chegando sempre à sua (in)evitável morte, conhecemos um pouco da relação dos dois, da tentativa que eles fizeram de dar certo. Mas não deu. Amor fati. Amor ao destino. Seguimos. Devemos seguir.

E você? Bem, Nadia, a verdade é que às vezes ficamos engasgadas durante uma vida inteira com cacos de vidros que outras pessoas quebraram, que não eram nossos para serem engolidos. Mesmo que vindos de pessoas tão próximas. Mesmo vindo de sua mãe. E isso também mata. Porque quando se esgotaram os “acidentes” externos; faltou ar, parou coração e as feridas da alma resolveram sair pela boca. O jeito é curar! Expurgar as feridas internas. Afinal, estava aí a quebra do encanto – salvar a si e salvar ao outro. E então, mesmo que os universos não se encontrem, cada um já vai saber o que deve ser feito.

Assim, mesmo em universos paralelos, cada um com sua dualidade quebrado/curado vai para a rua, para o carnaval, liberar suas almas do sofrimento.

“Você tem todos os medos dos mortais e todos os desejos dos imortais”, Sêneca, sobre a brevidade da vida

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